“A hora da estrela” de Clarice Lispector e de Suzana Amaral

Você sabia que, em 1985, Suzana Amaral adaptou A hora da estrela, da escritora Clarice Lispector, para o cinema? 

Clarice Lispector já disse o que tinha que ser dito a respeito da apreciação de sua obra: “ou toca, ou não toca”. A mim, sua obra toca profundamente, tão profundamente quanto é dado a uma obra de arte nos tocar. E não é diferente quando se trata de A hora da estrela, obra de 1977 que enfoca a personagem Macabéa, uma datilógrafa alagoana vivendo no Rio de Janeiro.

O que algumas pessoas talvez não saibam é que, em 1985, foi feita uma adaptação dessa obra para o cinema, com direção de Suzana Amaral. Além disso, Marcélia Cartaxo atuou como Macabéa e José Dumont como Olímpico de Jesus. Assisti a esse filme e trago aqui algumas das impressões que tive ao comparar as duas obras. Claro que não sem antes falar brevemente sobre as principais pessoas envolvidas.

Clarice Lispector: a autora

A hora da estrela Clarice Lispector

Uma das maiores escritoras brasileiras (eu diria a maior, né, mas ok) nasceu, na verdade, na Ucrânia. Nascida em 10 de dezembro de 1920, Clarice chega ao Brasil com a família em março de 1922. Apesar disso, sempre se identificou como brasileira.

Clarice publicou seu primeiro livro em 1943, aos 23 anos, Perto do Coração Selvagem. Embora tenha havido resistência por parte de alguns críticos em relação a essa primeira obra, outros grandes críticos perceberam de imediato a qualidade do que havia ali. Um destes últimos foi Antonio Candido (o GRANDE Antonio Candido). Ele publicou um texto chamado “No raiar de Clarice Lispector falando a respeito dessa obra inaugural. Candido, como só ele poderia fazer, definiu Perto do Coração Selvagem como “uma tentativa impressionante para levar a nossa língua canhestra a domínios pouco explorados”. Disse ainda que tal obra nos fazia sentir “que a ficção não é um exercício ou uma aventura afetiva, mas um instrumento real do espírito, capaz de nos fazer penetrar em alguns labirintos mais retorcidos da mente”. Já dá um arrepio só de ler esses comentários, não dá?

Em Clarice, mesmo uma obra com um viés mais social, como é o caso de A hora de estrela, tem “um olho voltado para dentro”. É inegável o intimismo que existe em suas obras, de modo que mesmo um evento aparentemente irrelevante como encontrar uma barata se transforma em um profundíssimo mergulho interior/identitário (é o caso de A paixão segundo G.H.).

Para ajudar a entrar no universo da pessoa que foi Clarice, sugiro:

  1. O especial da editora Rocco, com trechos retirados de crônicas que funcionam à guisa de autobiografia.
  2. A entrevista a seguir (a última dada pela escritora)

E para quem preferir ler, há uma versão escrita dessa entrevista no site da Revista Bula.

Suzana Amaral, quem é?

Nascida em São Paulo, em 28 de março de 1932, Suzana Amaral é cineasta e roteirista. Tem formação em cinema pela USP e já havia realizado vários pequenos trabalhos durante a década de 70 quando estreou em longas de um modo que não poderia ser melhor: em 1985, dirige o filme A hora da estrela, adaptação da obra homônima.

Essa, porém, não foi a única adaptação de obra literária dirigida por ela. Em 2001, Suzana Amaral dirige Uma vida em segredo, adaptado de obra de Autran Dourado.

A hora da estrela Cinema

A seguir, duas entrevistas (uma longa e uma curta/trecho) com a Suzana sobre o filme A hora da estrela:

Você pode ler a biografia completa de Suzana, bem como seus principais trabalhos, no site Mulheres do Cinema Brasileiro.

Marcélia Cartaxo: Macabéa

A hora da estrela Cinema

Marcélia Cartaxo nasceu em Cajazeiras (PB) em 27 de outubro de 1963. Foi descoberta por Suzana Amaral em uma apresentação teatral, o que fez com que, aos 19 anos, desse vida à personagem Macabéa. Sua atuação (maravilhosa) nesse papel lhe rendeu um Urso de Prata – nome do prêmio de atuação no Festival de Berlim. Uma curiosidade engraçada a respeito desse prêmio é que, segundo Marcélia, quando ligou para a mãe para contar sobre o prêmio, a mãe teria lhe dito: “traga o urso para cá, cachorra, que te dou uma surra. Você sabe que tá uma seca aqui, não tem grama nem para cabra, quanto mais para urso”.

Marcélia também foi entrevistada no SESCTV, assistam a seguir.

A hora da estrela: sinopse

Antes da comparação das duas obras, é interessante termos uma sinopse que mostre os acontecimentos da história em termos gerais, especialmente para aquelas pessoas que já leram o livro e/ou viram o filme e querem refrescar a memória. Nesse sentido, não vou excluir nenhum dos eventos importantes. Daí que se você não leu o livro nem assistiu o filme, talvez seja interessante fazer isso antes de voltar aqui.

A hora da estrela Cinema

Continuando: como já foi dito lá no começo, Macabéa é uma alagoana que, depois de perder os pais ainda nova, foi criada por uma tia solteirona que a maltratava e não se preocupava com ela. Mudou-se para o Rio com a tia e, depois da morte desta, Macabéa passou a morar em um pensionato (assemelhado a um cortiço) com outras moças. Durante todo o decorrer da narrativa ela trabalha como datilógrafa, ainda que esteja constantemente sob o risco de ser demitida. É colega de trabalho de Glória, uma mulher bem mais desenvolta do que ela em diversos aspectos e que, em certo momento da trama, lhe rouba o namorado, Olímpico de Jesus, também nortista, sonhador e bastante bronco.

Macabéa se alimentava basicamente de cachorros-quentes e Coca-Cola. Numa ida ao médico, descobre estar tuberculosa, mas, por ser um tanto ignorante, não se alarmou, sem ter noção da seriedade do caso. Glória, por remorso (por conta do roubo do namorado), sugere que ela procure uma cartomante, e empresta dinheiro para que ela o faça. A cartomante diz que Macabéa teria um futuro brilhante, como o de uma estrela. Diz que ela seria rica, casaria com um rapaz muito bonito, loiro, estrangeiro. [BIG SPOILER AHEAD] Ao sair da consulta, Macabéa morre atropelada. Nesse momento, o narrador-escritor sugere que ela vira uma estrela.

Comparando o livro à adaptação

A primeira coisa que tem que ficar bem clara aqui é: isso não é uma comparação técnica, acadêmica, formal. Parto principalmente de impressões e reflexões. Até porque se a intenção é ler uma análise comparada mais academicista, acho que há várias em revistas científicas em plataformas virtuais ou não. Aliás, se estiver procurando uma análise acadêmica, sugiro o Scielo. É um site indexador de publicações científicas. Não tem tudo lá, mas ajuda. Outra opção é o Google Acadêmico.

Mais uma coisa que deve ficar clara: compartilho da opinião de que uma adaptação não é uma reprodução de uma obra em outra “plataforma”, e sim o desenvolvimento de uma nova obra a partir de uma obra inicial, com a qual a nova obra conversa (a Suzana Amaral comenta um pouco a respeito disso na entrevista acima). Isso posto, não vou considerar uma adaptação cinematográfica melhor por ser “mais fiel” ao livro. Avalio como boa uma adaptação que absorve a linguagem e estética desenvolvidas dentro da obra inicial, permitindo ao produtor criar a partir dessa linguagem nova (vai ficar mais claro durante a comparação).

A primeira coisa em que eu pensei antes de assistir ao filme foi: o livro tem um narrador em primeira pessoa que é externo à narrativa de Macabéa. Rodrigo S.M. conta a história, ele sofre pela existência de Macabéa e pelo seu destino. Ele reflete sobre a vida e a sociedade a partir da história da nordestina, e sobre a própria dificuldade em traduzir isso em linguagem. Isso cria como que três níveis na obra:

  1. o nível da narrativa em si (a história de Macabéa);
  2. o nível da narração (Rodrigo, seus sentimentos e reflexões);
  3. o nível da metalinguagem (a reflexão sobre o fazer literário).

Essa multiplicidade aprofunda a obra literária de maneira fascinante e eu poderia arriscar dizer que é o que dá o tom de A hora da estrela. Como isso seria traduzido na versão cinematográfica?

A metalinguagem do texto literário acaba se perdendo, infelizmente. Porém, em relação ao plano de narração, a solução foi bastante efetiva. Partindo da concepção de que na narrativa fílmica a câmera assume a posição do narrador, Suzana Amaral fez com que a câmera – e, por extensão, o espectador – se transformasse em Rodrigo. Os enquadramentos, o cenário, o silêncio frequente que existe durante o filme nos leva a reflexões muito semelhantes às de Rodrigo em sua narração da história. E, mais do que isso, o espectador sente uma empatia profunda pela personagem, sofre por ela existir, sofre por sua simplicidade e ignorância. Assisti ao filme com amigos que não haviam lido o livro, e todos eles sentiram, especialmente ao final, o amargo que Rodrigo tenta o tempo todo traduzir em palavras.

Isso porque o paradoxo do romance, ou seja, a dialética entre aproximação e distanciamento que existe entre Rodrigo e Macabéa (de classes sociais, estilos de vida e consciência de mundo extremamente diferentes) acaba sendo reproduzido em relação ao espectador. Se Rodrigo se sente mais culpado à medida que se aproxima da história de Macabéa, questionando-se em relação ao sistema social em que se insere e em relação a seu próprio estilo de vida, nós, espectadores, nos sentimos igualmente impactados ao ver o modo de Macabéa viver. As imagens do degradado pensionato em que ela vive se fixam na nossa consciência e o fato que ela não ter capacidade de questionar o mundo que faz com que ela viva daquele jeito nos faz questionar o nosso lugar no mundo.

Outro aspecto importante em relação ao filme é que quem leu a obra sabe que há, no filme, situações e diálogos que não existem no livro. Uma amiga, ao assistir ao filme, elogiou Clarice por um posicionamento apresentado no filme a respeito do aborto, por exemplo. Mas o diálogo onde isso é mencionado simplesmente não existe no livro. Entretanto, é um diálogo que segue perfeitamente o perfil das personagens envolvidas como foi criado no livro, o que faz com que tal cena não fique deslocada na história.

Também a erotização da personagem Macabéa, que é sutil e até bastante ingênua no livro, acaba precisando ser revelada de forma um pouco mais óbvia, com a personagem se masturbando durante a noite, numa cena silenciosa e, consequentemente, um pouco perturbadora. Ao mesmo tempo, há algumas cenas mais poéticas com esse mesmo teor, como quando Macabéa dança sozinha no quarto da pensão, observa-se no espelho, faz do lençol um véu de noiva. Como, entretanto, a erotização de Macabéa no livro surge apenas a partir da visão onisciente de Rodrigo, que vê o que acontece nas profundidades da mente dela, dificilmente haveria uma forma melhor de demonstrá-la visualmente. Assim, achei a solução da diretora bastante válida.

A construção de alguns personagens é outra característica afetada na transposição de livro para filme: o encarregado direto pelo trabalho de Macabéa é bastante humanizado no filme, frequentemente se compadecendo da nordestina. Já Olímpico de Jesus “perde alguma de suas camadas”, uma vez que acaba surgindo como um homem bronco, não muito confiável, de caráter duvidoso, enquanto no livro sabemos que no passado ele já matara um homem e que no futuro alcançaria sua tão almejada posição de deputado – o que acaba funcionando como uma crítica política. Por outro lado, Glória “ganha camadas”, por ter mais cenas em que dialoga com Macabéa, revelando mais traços de sua personalidade. O foco dado pela direção do filme ao universo feminino é, consequentemente, inegável.

A hora da estrela cinema

Concluindo, são duas obras excelentes, que se complementam bastante e respondem cada uma às possibilidades dos gêneros dentro dos quais foram construídas. Ganhamos muito fruindo ambas as obras: o filme soma ao livro, e vice-versa. Mas, se fosse para recomendar uma ordem, eu sugeriria inicialmente a leitura do livro, para que a fruição do filme já iniciasse com o “clima emocional” criado por Rodrigo em sua narração.

Algumas referências consultadas

Além de ter lido o livro e assistido ao filme, consultei os sites a seguir para ajudar a organizar as ideias rabiscadas aqui.

  1. Entre o livro e a tela: A hora da estrela
  2. A hora da estrela: narrativa literária x narrativa cinematográfica
  3. A hora da estrela: adaptação de filme para livro
  4. A hora da estrela

Espero que tenham gostado e que esse texto incentive mais leitores (e espectadores) a conhecerem essas duas obras!

Thays Pretti Autor

Formada em Letras, com mestrado em Estudos Literários, decidiu focar sua vida na escrita literária. Tem dois livros publicados, um canal no Youtube sobre escrita e leitura, e publica crônicas semanalmente no jornal O Diário do Norte do Paraná. Quer viver de arte, cultura e chocolate, não necessariamente nessa ordem.