Conto Farrapo – Juliano Rodrigues

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Baixa visibilidade, nada como se aproveitar do orvalho da manhã para realizar um ataque, sabre desembainhado, postura inclinada sobre o cavalo. O animal Atílio acelera os passos conforme seu senhor o ordena, respiração ofegante, barulhos de canhão, vultos, queda. Um forte zumbido, alguém o puxa, desnorteado demora a levantar. Um grito ao seu lado, uma nova queda, percebe a face do imperialista, um rápido giro para desviar da lança que mesmo assim consegue raspar sua face. Desperta perante a ameaça, o sabre está longe, rapidamente seus pés fazem o movimento que os negros o ensinaram. Mesmo no chão, faz um giro com a perna direita, apoiando o braço esquerdo, derrubando o lanceiro e levantando em prontidão. Vê o companheiro caído e salta para pegar sua arma. O imperialista está agora de pé, e como tem uma arma maior não hesita, investe. Erro fatal, um leve desvio basta, tem suas costas arqueadas por um corte de sabre.

A batalha segue, mas em pouco tempo a tropa inimiga dispersa, o frio, o orvalho e o ímpeto com que estes defendem a sua República. Começam então a verificar os despojos do acampamento inimigo e a cuidar dos feridos. O soldado lamenta por Atílio, seu nobre companheiro se fora. Chamam-no:

– Venha os imperialistas nos deixaram um pouco de pão e carne, aproveitemos logo.

Após o café limpam sua ferida.

– Isaac, tu irás sobreviver. – Disse o companheiro enquanto esquentava a faca em brasa.

– Esta cicatriz será em honra a Atílio, o melhor cavalo que já tive.

Aproxima-se o coronel dizendo:

– Homem pegue esta carta, entregue-a ao capitão, não poderemos ceder soldados, como sabe os imperialistas estão em nosso encalço, tivemos sorte na investida de hoje. Vá o mais rápido que puder!

– Coronel não tenho mais cavalo, meu nobre Atílio tombou esta manhã.

– Pegue aquele potro ali, deve servir.

– Senhor Coronel, por que eu devo ir? Estou com uns novos arranhões, mas ainda sou hábil para a batalha.

– Vás tu, confio em ti.

O soldado obedeceu. Pegou o potro, sua postura firme e trato com propriedade logo demonstraram ao animal quem é que mandava ali. Em pouco tempo o cavalo já estava encilhado. Isaac seguia a galope este trecho perigoso, não se detinha, continuava seguindo como o Coronel lhe havia ordenado, o mais rápido que podia.

Alterna um pouco a velocidade para que o cavalo descanse, será uma longa viagem. Quando está devagar conta as façanhas pelas quais ele e Atílio passaram juntamente:

– Atílio é que era cavalo de verdade, a esta altura com ele eu já estaria muito adiante, lembro-me que certa vez fomos de Gravataí a Tramandaí à galope, pois bem, acredites tínhamos de nos unir a uma tropa que estaria avançando para tomar a República Juliana, naquele tempo não se chamava assim, era território dos imperialistas.

– Certa vez em Vacaria investimos contra os atiradores, foi um rompante, Atílio parecia um trovão, assustamos mais de dez homens, apenas com seu trote e minha lança. E tu já estás cansado, afadigado e ainda temos uma boa caminhada. Tu estás mais esfarrapado que a minha roupa? Como podes ser tão frouxo. Eu deveria ter relutado um pouco mais por sua causa, vai que o Coronel me desse um cavalo de verdade, certo que jamais seria como meu velho companheiro, mas serviria. Vamos parar ou tu não aguenta. – Contava, declamava muitas outras histórias, assim como, seguia reclamando.

Descansaram algumas horas, o soldado tinha pressa, o cavalo agora tentava se rebelar, talvez tivesse ouvido insultos demais, porém Isaac sabia como lidar com ele, não o deixava perder as estribeiras. Logo seguiram viagem, era manhã novamente.

– Cavalo que nem tu nós damos para as prendas passearem lá na estância, Atílio não, só eu o conduzia, prenda com ele, só se fosse minha esposa no meu colo.

O cavalo não aguentou o trote, sucumbiu de exaustão. – Isto jamais aconteceria a Atílio. – Lamentou. Após, Isaac teve de seguir a pé, mesmo assim não se deteve, marchou ao dobro da velocidade normal por dois dias, sempre que pode pegava carona em alguma carroça que pela estrada passava. O guerreiro tinha uma missão importante a cumprir.

Então chegou a seu destino, rapidamente correu até ao fogão e jogou a carta na brasa. Seu pai, apesar de quase cego o reconheceu e foi tropicando ao seu encontro emocionado:

– Filho depois de tantos anos estás de volta!

O abraço foi longo, Isaac cansou de lutar as batalhas que estavam chegando ao fim e que só serviam aos estancieiros no fim das contas. Decidiu usar sua bravura em prol da luta que mais merecia. Cuidar de sua família.

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