A escrita e a masturbação

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13philip-1-articleLargeVeio então a adolescência e eu passava a maior parte trancando no banheiro, disparado meus esguichos no vaso sanitário ou dentro da cesta de roupa suja, ou num plaft contra o espelho do armário de remédios, diante do qual me punha de cuecas arriadas, para ver como era a coisa saindo (…) No meio da aula, levantava a mão pedindo licença,corria pelo corredor até o banheiro, e com dez ou quinze sacudidelas me soltava, em pé no mictório(…) Se ao menos conseguisse baixar para uma punheta por dia, ou ficar nas duas, ou mesmo nas três! Mas, com a perspectiva do fim próximo diante de mim, na verdade comecei a estabelecer novos recordes (…) Cubro os olhos e vejam só! – Lenore Lapidus! – a mais peituda da classe, correndo para pegar o ônibus depois da aula, com a sua volumosa e intocável carga oscilando pesadamente dentro da blusa; Oh, eu os quero ali, vamos, OS PEITOS REAIS DE LENORE LAPIDUS, e verifico no mesmo instante que a minha mãe está sacudindo violentamente a maçaneta da porta.

Os trechos acima são do Complexo de Portnoy – a obra máxima do escritor estadunidense Philip Roth. Já leu? No romance, Alexander Portnoy, advogado judeu de Nova York, conta a seu psicanalista, o doutor Spielvogel, num tom que oscila entre o hilariante e o patético, os traumas causados por uma rígida educação judaica tradicional, capitaneados pela figura de sua mãe, Sophie Portnoy, de quem o narrador-protagonista é incapaz de se libertar da influência e do sentimento de culpa por desobedecer as suas ordens, e as dificuldades em lidar com a compulsiva necessidade de masturbar-se.

Lembrei o Complexo Portnoy por conta do Dia Nacional do Escritor, que se celebrou na última sexta, 25. Guardando as devidas proporções e sem confundir alho com bugalhos, farei uma comparação um tanto incomum: ousarei a dizer que escrever é masturbar-se. Sempre tracei esse paralelo. Mas deixe-me te explicar. Assim como a masturbação, escrever é um exercício de vaivém: se vai e volta, escreve e reescrever, aumenta e diminui o ritmo, vai de lá pra cá, daqui pra lá, até o ápice do ponto final. Quem nunca ouviu a expressão: o fulano tá punhetando o texto! Em ambos os casos, é preciso liberar o que se traz dentro, sob pena de enlouquecer.

A masturbação é um prazer solo e os escritores sempre falam da escrita como sendo um ato solitário. Creio que sejam poucas as pessoas que se sintam à vontade em ter que escrever na presença de outras pessoas – digo entre aqueles para quem escrever tem um caráter primordial. Só os jornalistas me veem à cabeça agora como exemplos de exceção à regra, mas nós somos uns onanistas exibicionistas. Um bando de gente numa redação batendo matéria parece sala de cinema pornô. Escrever em público é muita sem-vergonhice, é o cúmulo do despudor.

Digo mais, se imaginar numa situação erótica é uma habilidade desenvolvida somente pelos hominídeos, assim como a capacidade de abstração e de construir enredos, personagens e emoções. E os aparatos técnicos para ambas as práticas são os mesmos: mão e imaginação em plena ação. Tem tudo a ver, né?

Em seus livros, mesmo sem deixar de se debruçar sobre outros temas, como o judaísmo e obsessões sexuais, Philip Roth sempre refletiu sobre o ato de escrever. Não é à toa que o escritor Nathan Zuckerman, alter ego do autor, protagonizou nove dos seus romances.

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Nos últimos meses, infelizmente grande escritores brasileiros vieram a falecer. Ivan Junqueira, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro e agora, mais recentemente, Ariano Suassuna. Para homenagear todos os escritores do planeta, os vivos e o que passaram desta para melhor, como diz o clichê, que tornaram a realidade mais aprazível e ampliaram a nossa visão de mundo, transcrevo a seguir um pensamento do autor de O Auto da Compadecida: A literatura é uma forma de protestar contra a morte. O homem não nasceu para a morte: o homem nasceu para a vida e para a imortalidade.

Vida longa aos escritores e onanistas!