A Ilha parece um testamento pessoal de Aldous Huxley

            A Ilha, última ficção de Aldous Huxley, traz algumas características de sua prosa. Considerando aspectos literários, é um livro mediano, que deve um pouco às publicações anteriores – embora seja mais fácil o ler como um testamento pessoal do autor.

Huxley / A Ilha
Huxley aproveitando a vista d’A Ilha

Pala é A Ilha perfeita. Afastada dos grandes centros geográficos, Pala tem o suficiente para que todas as potencialidades humanas sejam realizadas. Há um elo completo entre o corpo e a mente, desenvolvido desde o berço. Pobres mortais que nem a gente se sentem burros quando a veem e sabem um pouco dela, porque é algo tão, tão perfeito que a gente nem acredita que a nossa espécie pode tanto; e também podem querer se apossar de um cantinho surreal desses, com outras potencialidades em mente.

Esse cenário realizado é o palco de A Ilha, última ficção de Aldous Huxley, publicada em 1962. Acompanhamos a chegada à Pala graças ao protagonista Will Farnaby, que acorda nela após um acidente. A recuperação física é o de menos para ele, acostumado a explorações geográficas e principalmente às atividades peculiares de seu chefe. Farnaby recebeu ordens claras de Joe Aldehyde, magnata o bastante para ilhar-se em seu poder, mas a chegada desastrosa em Pala o forçou a mudar os passos.

Na convivência imposta com os responsáveis por sua recuperação, ele conhece mais desse mundo realizado. São conversas com um descendente de um dos fundadores de Pala, e com uma habitante que o apresenta às filosofias locais. A civilização de Pala foi conduzida pelo ideal do bem-estar humano, e os esforços de seus criadores se refletem no presente, de modo que cada atitude dessa sociedade particular sirva para desenvolver uma característica.

Pode ser o desprendimento, pois os adolescentes de Pala têm a opção de “trocarem” de famílias durante seu crescimento. A miscigenação genética como escolha, graças a um método por meio do qual pais podem adicionar filhos inseminados com genes escolhidos à prole biológica. Também vale ressaltar a união corpo e mente, responsável por uma saúde física (e mental, ao menos na aparência) invejável, livre de remédios e falácias profiláticas.

Claro que esse mundo desenvolvido exige uma responsabilidade absurda de seus habitantes. O senso de comunidade é tão forte que as crianças parecem ter nascido prontas, mas isso não pesa nos ombros delas quando passam a ter a idade para continuar o legado de seus antecessores. E nem nos de ninguém. Essa sociedade é muito integrada e consciente de si mesma, e o mundo “aqui fora” parece uma abstração.

A IlhaMas Pala não brotou no mundo, embora não dê sinais de querer integrar-se a ele. A recíproca não é verdadeira, pois um distrito bem próximo chamado Rendang quer Pala para si. A gente sabe disso graças às conversas de Will Farnaby com dois habitantes: um rajá, às vésperas da posse e ações do cargo, e uma mulher guiada pelo que chama Minha Pequena Voz, rótulo em contraponto ao seu físico e à sua opulente presença na cabeça do rajá. A motivação de ambos é a potencialidade monetária e geográfica oferecida por Pala, sem afeto por sua identidade integrada e autoconsciente.

 

 

 

A fundação d’A Ilha

 

A Ilha é a terceira utopia de Aldous Huxley, precedida por Admirável Mundo Novo (1932) e O Macaco e a Essência (1948). O próprio autor a considerou um AMN reverso quando ainda o escrevia, conforme disse à Paris Review. Mesmo carregando marcas fortes de sua prosa, esse romance tem tantos contras quanto prós.

É a mesma redação elegante de suas obras anteriores, ainda que muito menos irônica e humorada. Parte disso se nota na descrição de Pala e seus habitantes, de quem o autor claramente toma partido. Os personagens variam entre caricaturas, representações de ideais e repetições chatas de anteriores. Faltou algo neles, ao contrário de outros – que podemos achar ridículos de tão cheios de si ou ingênuos em seus mundinhos. O enredo continua em um avanço lento e guiado pelos personagens, cujas conversas o dominam. Nenhuma novidade aqui – Contraponto e Admirável Mundo Novo que o digam.

O posicionamento é, em parte, novo. O Huxley desse livro é um homem envelhecido, que já abriu suas Portas da Percepção e deixou claras suas inclinações místicas, resumidas e mescladas ficcionalmente. E o faz sem concessões. É como se qualquer um pudesse ingressar na vida espiritual de Pala a qualquer hora, e fazer parte dela como se tivesse nascido lá.

Autor de onze ficções (incluindo A Ilha), as mudanças na produção de Huxley foram sutis. Nada de permanências – a fragmentação temporal e a cara de roteiro de cinema, presentes em Sem Olhos em Gaza e O Macaco e a Essência, foram recursos únicos, como também foram o drama familiar em O Gênio e a Deusa e a onipresença da sátira em Também morre o Cisne.  Vale o mesmo para a filosofia excessiva do livro abordado aqui.

Quem quiser conhecer melhor a ficção de Huxley pode aproveitar outros livros dele, em que as qualidades de sua prosa são mais evidentes. É mais fácil pensar nessa publicação como uma despedida, até mesmo um testamento pessoal de Huxley. Enquanto livro, A Ilha é mediano perto da construção ficcional do autor.

Walter Bach Autor

Colaborador do Homo Literatus desde 2014, demente profissional (vulgo editor) desde 2016.