Kornél Esti e as narrativas de quem desconhecemos

Coletânea de Dezsö Kostoláyni centrada no personagem Kornél Esti, O Tradutor Cleptomaníaco tem um tom relaxado, cujo rigor mostra, em pedaços de sua voz autoral, como a gente poderia ouvir as histórias desse livro em qualquer lugar

Dezsö Köstolányi escrevendo sobre Kornél Esti
Dezsö Köstolányi escrevendo sobre Kornél Esti

Kornél Esti é do nosso povo. Detetive involuntário, sabe de gente que já foi do nosso convívio, e ninguém faz a menor ideia de onde vive. Sempre esbarra com alguém, às vezes até ajuda e finge que gosta de quem vê. E sua vida surpreende até quem o conhece há tempos. Os contos apresentados em O Tradutor Cleptomaníaco – e outras histórias de Kornél Esti, escritas por Dezsö Kostolányi e publicadas pela Editora 34, passam a impressão de que ele está à nossa frente.

Esti conta quando conseguiu um freela de tradutor para um conhecido, velho amigo de si e de seu grupo. O tradutor sazonal se dedicou tanto que seu trabalho parecia uma versão nova. E era. Não só por suas bem-vindas neuroses, mas porque ele diminuiu todos os bens materiais dos personagens. Essas “diminuições” aconteceram em todas as atividades anteriores, eram sua marca. E é graças ao papo do Esti que sabemos mais desse cara.

E de papo ele manja. Há um conto em que uma senhora o procura ansiosamente, implorando-lhe por uma avalição de seus pesados manuscritos. Claro que o Kornél aceita, não é de negar uma gentileza. Vai demorar, claro, mas a senhora o entende e aceita seu prazo. E o nosso protagonista é tão boa gente, e principalmente bom de papo, que conta à madame suas opiniões sobre o livro. O problema está naquela parte, minha senhora, o desenvolvimento e o blábláblá do leitor beta da vez. Tão beta que opina sobre o que não leu, mas quem vai saber?

Quem realmente é Kornél Esti?

Ninguém. E ninguém sabe de verdade como é a vida dele – ou foi. Foi só ele pedir uma nota de cinco emprestada e veio outra face à tona. Porque o problema não é a falta do dinheiro, até o excesso dele faz mal. A meditação de boteco serve de gatilho para uma história de quando ele era mais novo, quando uma herança criou um mal-estar interno. Ostentar a fortuna seria um problema, possuí-la era problema e meio. E dá-lhe criar formas para se livrar disso, entre o desastre, a gentileza gratuita e a persistência no anonimato.

Não está escrito no livro, mas essa fortuna persistiu porque o cleptomaníaco citado no começo não estava perto. Também não se diz quem é Kornél Esti de verdade. As mudanças de ponto de vista são sutis, variando entre primeira e terceira pessoa, sem que o nome de quem fala do Esti apareça. A linguagem é coloquial o tempo todo, colaborando para o tom relaxado dessa coletânea.

Um relaxamento que pede muito rigor. Parte disso se lê quando Kornél fala de quem encontra, simpatizando com a pessoa ou não. Do braço estendido à sociabilidade forçada, a ideia é contar as histórias e deixá-las ao gosto do ouvinte. Mesmo quando as intenções do personagem são claras, ele apenas protagoniza os contos, sem impor interpretações. Isso se estende às narrativas em que ele é o foco, pois em todas há pontos de vista sem maniqueísmos.

Kornél pode ser um bom ouvinte, um conhecido generoso, alguém com quem se pode contar. Também pode ser um pilantra, um falso refinado e um mercenário desastrado. Isso pode ser verdade ou não, pois sua identidade é revelada aos poucos. Montamos um retrato parcial, tão parcial quanto o que ele nos conta de si e dos demais.

A gente pode interpretar isso como parte da intenção do autor. Nascido em 1855 no Império Austro-Húngaro, Dezsö Kostoláyni viveu em Budapeste, onde desenvolveu suas carreiras profissional e literária. Há menções à geografia e alguns costumes locais, embora não sejam determinantes para essa publicação. Conduzida por seu protagonista, a coletânea O Tradutor Cleptomaníaco e outras histórias, de Kornél Esti, traz histórias que podemos ouvir por aí, contadas por pedaços de uma identidade marcada.

Walter Bach Author

Colaborador do Homo Literatus desde 2014, demente profissional (vulgo editor) desde 2016.