Jorio Dauster: o embaixador que traduziu O Apanhador no Campo de Centeio

O Homo Literatus conversou com Jorio Dauster, tradutor de O apanhador no Campo de Centeio e outras obras importantes

Jorio Dauster

Nascido em 1937, Jorio Dauster foi um dos tantos jovens fortemente impactados pelo livro O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, lançado nos Estados Unidos em 1951. Anos depois, em 1957, aquele jovem, que viria a fazer uma brilhante carreira diplomática, juntou-se a mais dois amigos na divertida e desafiadora missão de traduzir a obra-prima do recluso escritor americano para o português brasileiro. De lá para cá, Dauster rodou o mundo representando o Brasil e, em meio aos compromissos oficiais, dedicou-se à tradução de grandes livros por puro hobby.

As atividades ligadas ao Itamaraty ficaram para trás após a aposentadoria e deram lugar a sua atuação como consultor, mas o prazer de verter grandes obras do inglês para português permaneceu. Ainda bem, pois é graças ao trabalho de Dauster que outras obras importantes chegaram às mãos de milhares de leitores brasileiros.

O Homo Literatus conversou com Jorio Dauster, que, dentre outras coisas, falou sobre o trabalho de tradução por puro deleite pessoal e os segredos para quem deseja ingressar nesta atividade editorial. Confira a entrevista a seguir.

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Homo Literatus: Quando e como surgiu o interesse e a oportunidade de traduzir obras literárias?

Jorio Dauster: Tudo começou com o Apanhador no campo de centeio, pelo qual me apaixonei ao passar um ano nos Estados Unidos como estudante em 1957. De volta ao Brasil e já cursando o Instituto Rio Branco, descobri que dois outros colegas, Alvaro Alencar e Antônio Rocha, também eram grandes admiradores do livro do J. D. Salinger, nascendo então a ideia de uma tradução a seis mãos. O trabalho foi sendo feito sem pressa e por fim o levei a Rubem Braga, em sua famosa cobertura de Ipanema, no Rio de Janeiro, sugerindo que o livro fosse publicado pela Editora do Autor, da qual ele era um dos sócios à época. Acho que recebemos os três, pela tradução que ninguém nos encomendara, o suficiente para cada qual comprar um par de sapatos! Mas a partir daí fiquei viciado no ofício e hoje já tenho mais de trinta obras vertidas, dentre as quais três dos quatro livros de Salinger, mais de dez do Vladimir Nabokov, vários do Philip Roth, do Ian McEwan, do Oscar Wilde, e por aí vai – um timaço em matéria de literatura em língua inglesa.

HL: Como foi o processo de trabalho para manter aquela linguagem tão fluida e característica do Salinger?

JD: A preocupação fundamental foi a de reproduzir o linguajar de um adolescente que, aparentemente, está gravando suas recordações numa clínica de repouso. Depois que meus dois cotradutores foram removidos para o exterior, passei longas horas fazendo uma cuidadosa revisão que homogeneizasse totalmente o texto. Especial atenção foi dada aos diálogos, um dos fortes do autor, entrando aí o uso de gírias mais consolidadas, por assim dizer, para que pudessem ser compreendidas por leitores do todo o país e tivessem maior durabilidade no tempo. Além disso, por exemplo, só é empregada a conjunção adversativa “mas”, pois nenhum garoto usaria “porém”. “entretanto”, “todavia” ou coisa do gênero. Acho que são esses cuidados arquitetônicos, nos quais o leitor normalmente nem repara, que fazem com que a tradução tenha resistido a quase cinco décadas de leitura intensa.

HL: Como é a dinâmica desse processo. É a editora que entra em contato e oferece o trabalho ou é o senhor que indica um título para tradução?

JD: Com a exceção acima mencionada, em geral são as editoras que me oferecem as obras, mas também faço recomendações ou pedidos em casos especiais. Como traduzo por diletantismo, só trabalho naquilo de que gosto e sem prazos fatais, o que me permite desfrutar totalmente de uma atividade que, no Brasil, é muito mal remunerada e pouco prestigiada. Quantas vezes você vê alguma referência à tradução nas resenhas literárias?

HL: Quais são os desafios da tradução? Em média, quanto tempo o senhor leva para finalizar uma?

JD: Cada autor e cada obra tem peculiaridades que precisam ser devidamente compreendidas e atendidas pelo tradutor. Por exemplo, a extraordinária riqueza verbal de um Nabokov exige um trabalho de ourivesaria de quem pretende trazê-lo para o vernáculo ao buscar a melhor correspondência possível entre, às vezes, dezenas de possíveis soluções em português. Agora, por exemplo, ao enfrentar Orlando de Virginia Woolf, preciso lidar não apenas com seu extensíssimo vocabulário e frases sinuosas, mas entender que tudo isso, neste caso, está vinculado ao caráter paródico da obra, contém um elemento até de autogozação. A velocidade com que traduzo depende muito dos meus outros compromissos profissionais, razão pela qual já deixei de aceitar algumas ofertas intelectualmente apetitosas por não desejar me comprometer com deadlines editoriais.

HL: Quais são os títulos que te deram mais satisfação em traduzir?

JD: Como nenhum deles foi fruto de uma obrigação, todos sempre me deram prazer. Mas, para citar uns poucos que representaram desafios excepcionais ou me marcaram pela força do original, citaria o O Apanhador no Campo de Centeio e Nove Estórias, de Salinger; Lolita e Fogo pálido, de Nabokov; Patrimônio, de Roth; Solar, de Ian McEwan; O testamento de Maria, de Colm Tóibín.

HL: Como concilia o trabalho diplomático com o de tradutor?

JD: Hoje estou aposentado do Itamaraty, embora muito ativo como consultor de empresas. No entanto, há várias décadas uso as traduções como excelente válvula de escape para todas as tensões da vida profissional, ocupando com elas boa parte de minhas horas vagas.

HL: Cremos que a literatura é uma fonte de grande prazer para o senhor. Seria o trabalho de tradução a união entre o “útil e o agradável”?

JD: Parodiando Castro Alves e invertendo sua presunçosa afirmação, não sinto em mim o borbulhar do gênio, ou seja, sou um amante da literatura mas não reconheço em mim a ânsia criativa que me levaria a ser um bom autor. Nessas condições, a tradução de grandes obras em inglês é minha maneira, sim, de conciliar o útil (supostamente para a cultura brasileira) e o agradável (meu “barato” individual).

HL: Qual é o conselho que o senhor daria para uma pessoa que deseja ingressar neste segmento do mercado editorial?

JD: Conhecendo profundamente o português e a língua da qual verterá, acho que o interessado deve procurar diretamente os responsáveis pelas traduções nas grandes editoras, em geral pessoas com imensa experiência na área e capazes de dar as orientações cabíveis.

Antonio Munró Filho Author

Formado em Jornalismo e em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Grande do Sul (PUCRS), Antonio Munró Filho tem larga experiência na área de comunicação. Entre 2001 e 2012 trabalhou nos jornais Zero Hora e O Sul, dois dos principais veículos impressos do Rio Grande do Sul. Vive no Rio de Janeiro desde 2012 e, atualmente, faz uma pós-graduação em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo.

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