O “quê” de kafkiano no Impeachment de Dilma

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Franz Kafka, com seu romance O processo, faz o que podemos nomear como “prenúncio” do suplício de Dilma

dilma

“Alguém devia ter caluniado Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã”.

Assim que, sem rodeios, Franz Kafka começa a via crucis daquele que viria a ser um de seus personagens mais emblemáticos, o Josef K., do romance Der Prozess (O processo), e é com esse mesmo romance que o escritor theco faz o que poderíamos chamar “prenúncio” do suplício de Dilma Rousseff, a atual presidente eleita do Brasil.

Óbvio que essa não era a intenção do Kafka, mas não estamos aqui falando de sua intenção, mas da interpretação mais política possível que sua obra pode ter.

Em O processo, Kafka que, além de tudo era e atuava como advogado, narra a história de K. que acorda certa manhã e se depara detido, acusado de um crime que não cometeu e que enfrentará um processo repleto de burocracias e cenas insanas que culminará, ainda que respeitadas as formalidades dos procedimentos, bem como a sua ampla defesa, na sua condenação à morte.

No caso brasileiro, no que chamamos “vida real”, temos circunstâncias muito parecidas com aquelas sofridas pelo Josef K. Primeiro, temos uma pessoa que ocupa o cargo de presidente da república, acusada de cometer delito fiscal que, tecnicamente não cometeu. Mas existe uma pressão política gigantesca, em razão de rivalidades históricas, para que ela seja deposta. Assim, sob os mais variados subterfúgios o processo é instaurado e, em meio a vinte e sete mil páginas de burocracias e formalidades procedimentais, culminará, ainda que ela se defenda, em sua deposição.

O julgamento de K. é um completo circo. Centenas de pessoas o assistem e riem sempre que ele fala. O tomam como culpado, e entendem todas as suas palavras de revolta como disparates, forçada de barra. Os juízes, por outro lado, com suas caras imparciais, fingem que escutam cada palavra, se coçam para dar o veredicto.

O julgamento final da presidenta Dilma é feito numa sala repleta de atores de circo. Dão enorme valor ao procedimento constitucional e legal do processo, mas nenhuma atenção ao que se chama “direito material”, ou seja, a saber se houve crime ou se não houve crime. Os fundamentos dos votos pela condenação são “Deus, Estado, família e pátria”, tanto na Câmara dos deputados, reconhecida como a “casa dos horrores” depois de sua votação, quanto pelo senado. A defesa da presidente, mesmo o seu pronunciamento em onze horas de depoimento é mera formalidade, os votos estão prontos e a sua cabeça deitará na bandeja como a do João Batista.

Como um cão, Josef K. deixa-se matar num beco escuro. Como um cão.

“Como um cão! – era como se a vergonha fosse sobrevivê-lo”, sangra Kafka. A única coisa a diferençar o caso Dilma do caso K. é que a vergonha que sobreviverá no primeiro é a do povo brasileiro ante a tão hediondo golpe parlamentar.

 

Referência

KAFKA, Franz. O processo. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2008