Por que ler Guimarães Rosa?

Sobre como a leitura das obras de Guimarães Rosa auxilia a reconhecer as diferenças do outro

A educação básica e, sobretudo, os cursinhos pré-vestibulares têm uma categoria curiosa para enquadrar Guimarães Rosa na história da literatura. Para eles, o escritor mineiro pertence à terceira geração do nosso modernismo. No entanto, esse rótulo não diz quase nada relevante sobre seus traços norteadores ou suas contribuições para a ficção brasileira. Aliás, quanto mais avançamos no sentido temporal das escolas literárias, mais as nomenclaturas dão sinal de clara insuficiência.

O que interessa aqui, contudo, não é debater os limites e malefícios desse modo particular – infelizmente soberano – de apresentar a literatura nas escolas, mas sim fazer um sobrevoo mais rente a dois aspectos desse autor imprescindível para a cultura brasileira: o aspecto fabulista e o aspecto regionalista.

Quem procurar pela bibliografia de Guimarães Rosa talvez possa se enganar no que diz respeito ao volume de sua produção. São apenas cinco livros publicados em vida e três póstumos. Estreia com Sagarana, em 1946, reaparece dez anos depois com Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas e termina, na década de 1960, com Primeiras Estórias e Tutaméia. Após a morte, são editados Estas Estórias, Ave, Palavra e Magma, sendo os dois últimos procurados, em larga medida, mais por pesquisadores que por leitores não especializados.

Essa aproximada meia dúzia de obras, entretanto, enfeixa um extraordinário número de narrativas, causos, estórias, contos e enredos. Assim, tudo se sagaranamultiplica, prolifera-se. Ao contrário de muitos escritores e escritoras que parecem, a cada livro lançado, gravitar sempre em torno de semelhante entrecho, Rosa é prolífico em criar renovadas situações e personagens.

Sua espantosa capacidade de fabulação nos leva ao primeiro ponto de interrogação que consideraremos, pois crucial no campo da estética e incontornável para cada pessoa que se proponha a escrever: é possível ainda contar histórias?

O filósofo alemão Theodor Adorno, em ensaio fundamental sobre a posição do narrador no romance, afirma que não, em especial se a intenção for continuar sob as mesmas roupagens do século XIX. Ressalta a impossibilidade de narrar depois do abalo que as grandes guerras provocaram na sensibilidade humana. Decorreria desse impacto terrível um deslizamento da antiga figura do contador de aventuras para a fragmentação e dispersão do modo de expor os dados da experiência, incapaz agora de ordenar os acontecimentos e coisas do mundo.

Nesse sentido, não é estranho que ele defenderá as vanguardas, expressões dessa ruptura com o modelo narrativo tradicional que remonta, em última instância, à oralidade. A posição do frankfurtiano, no limite, cristaliza ideias que estão no cerne das grandes questões da modernidade.

Ora, Grande Sertão: Veredas, por exemplo, é uma resposta formidável a esse impasse. Sem apostar em realismos, algo também combatido veementemente por Adorno, o livro é um rico painel de histórias. Vale registrar que Riobaldo, protagonista do romance, não deixa de sublinhar a arbitrariedade que conduz sua fala, o distorcimento dos fatos pela memória, ao longo do envolvente relato de sua vida; no entanto e igualmente, não se furta ao ato de narrar. Em resumo, a perspectiva desfigurada se faz sentir também na obra, mas com outros propósitos. No lugar de plasmar cruamente um mundo desencantado, investe na tentativa de reencantá-lo com histórias e momentos poéticos. Não que tal resposta seja a solução, o único caminho possível, mas representa uma alternativa.

A título de comparação, tomemos o caso da poesia concreta, movimento cosmopolita sintonizado com o que havia de mais moderno e radical no panorama literário contemporâneo a Rosa. Arquitetada sobre princípios de veredasdesintegração de linguagem/comunicabilidade, autorreferência e autonomia da obra de arte e capitaneada pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e pelo não menos importante Décio Pignatari, a poesia concreta pouco se interessava em contar algo ou investir em conteúdo, a preocupação era entusiasticamente formal.

Guimarães Rosa percorre, como observamos, vias diferentes. Além disso, inscreve-se numa tendência regionalista que, embora dominante nos anos 1930, já sinalizava certo esgotamento naquela conjuntura marcada pelo desenvolvimentismo.

Fator decisivo para nosso segundo ponto de interrogação: é possível ainda ser regionalista?

Nome destacado nos estudos rosianos, Walnice Nogueira Galvão, compreende o lugar de Rosa na literatura brasileira como uma síntese de duas vertentes literárias: o já citado filão regionalista e a linha espiritualista. Em razão disso, conciliaria descrição da vida sertaneja e especulação metafísica. O autor mostraria que o mais papudo dos catrumanos dos rincões do Brasil pode aspirar à transcendência, mesmo sendo iletrado. Visão bem distinta de uma abordagem que representa o pobre como tipo social, sem qualquer densidade psicológica.

Um dado importante de frisar é que a ficção introspectiva, herdeira do romance católico francês, é algo relativamente novo, enquanto a prosa ao rés-do-chão, comprometida com a pesquisa geográfica e social, é velha companheira das letras nacionais. Esteve presente desde os cronistas coloniais, passando pelos subprodutos indianistas e sertanistas do romantismo. Mais adiante, ganha novo sopro com autores naturalistas e chega ao limiar do modernismo paulista. Nos anos 1930, dá um grande salto de qualidade nas mãos de um Graciliano Ramos ou uma Rachel de Queiroz, em especial porque coincide com a formação de um mercado editorial e com a ampliação de um público leitor. Nesse contexto, o papel do livreiro José Olympio é decisivo.

Isso tudo faz com que a vertente regionalista seja um programa estético dominante entre nós, mas que em fins da década 1940 sofra, por outro lado, sua contrapartida mais incisiva: o processo de urbanização.

Vidas Secas (1938) e O Quinze (1930), para citar os títulos consagrados dos nomes acima elencados, tratam da diáspora nordestina. Mas o que vem depois? E quando parte significativa da população das zonas rurais já se deslocou para as cidades, como São Paulo ou Brasília?

Talvez possamos nos valer de uma equação entre os mundos rural e urbano: quanto mais incorporada e diluída a cultura dos interiores do país pela modernização, mais o projeto literário regionalista arrefece. Daí a sensação de enfraquecimento desse modelo.

No entanto, contrariando todas as expectativas, Guimarães Rosa aparece com suas obras na esteira regionalista e prova que ainda é possível retirar desse universo uma ficção de inconteste qualidade.

“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fecho”, define Riobaldo já nas primeiras páginas de Grande Sertão. Não são apenas os seres que têm profundidade psicológica, mas o próprio lugar. O sertão é vasto como os meandros da alma humana, é onde começa e termina, grosso modo, toda a obra de Rosa. Sertão de Minas, dos Gerais, menos árido e de rios gigantescos como o São Francisco.

É nesse espaço geográfico e simbólico, sertanejo e místico, que o autor situa também suas estórias (para usar o termo com que ele insistia em designar os próprios contos), narrativas estas do calibre de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, “Desenredo”, “Sorôco, sua Mãe, sua Filha” e “A Terceira Margem do Rio”.

Diferentemente da síntese algo horizontal de tendências sugerida por Walnice, o que se observa é um movimento vertical. O autor supera o filão regionalista menos pela fusão de tradições opostas do que por uma investida por dentro da vertente. Sua observação crava-se tão agudamente na realidade que atinge o âmago de questões primordiais (a morte, o amor, a existência ou não do diabo, a ambiguidade dos seres, o sentido da vida, etc.), e não tópicos estritamente regionais. Paradoxalmente, quando a literatura cola no real, ela se libera como ficção de alto nível. O que indica que Guimarães Rosa não abandona propriamente o regionalismo, mas sim dá a ele dignidade, mostrando-nos que é de rumos improváveis que surgem grandes obras.

Nesses termos, as regiões afastadas dos grandes centros e as pessoas pobres não são, por isso, menos encantadoras ou cruéis. São, na verdade, tão complexas e inconstantes quanto os homens e mulheres letradas – leitores e leitoras de literatura.

É justamente em função desse olhar respeitoso e livre de um ranço de superioridade que Rosa rompe o pitoresco, fazendo-nos enxergar e reconhecer, pela leitura, as diferenças do outro. Identificando, ainda assim, o lastro comum de humanidade entre um jagunço e um doutor da cidade, como em Grande Sertão, numa conversa que tem muito a nos revelar e emocionar.

Para concluir, convém notar que esses dois aspectos são, por um lado, exemplares de que talvez, em última análise, “nunca” seja uma das palavras que não rima com arte, território no qual é sempre possível ir além. Por outro, são instigantes convites para ler Guimarães Rosa e se deliciar com as histórias sempre cativantes de seus sertanejos.

Pois então, fica o convite e boa leitura!

Miquéias Sartorelli Autor

Graduado e mestrando em Letras pela UNESP. Tem interesse especial por cinema e violão de concerto.