Resenha: Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo – David Foster Wallace

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Adquiri um novo vício literário: ler livros de ensaios. Estranho? Não! Se você é um curioso daqueles que vivem querendo saber de vários assuntos ao mesmo tempo; ler ensaios se torna um hábito muito rápido.

Veio a calhar então a leitura de Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, de David Foster Wallace, publicado pela Companhia das Letras. Por que não misturar filosofia com bom humor? Wallace faz isso com maestria. O livro é composto de uma seleção de seis textos do autor; e ainda vem com o prefácio escrito por Daniel Galera (a tradução também é dele).

ficando_longe_do_fato_de_ja_estar_meioEntre os textos, há três reportagens, digamos, sem um compromisso jornalístico real. É na verdade um escritor colocando-se no papel de jornalista. Logo de cara, o leitor acompanha Wallace numa incursão por uma feira no interior americano; mas o que poderia parecer apenas um diário de bordo, torna-se uma experiência de questionamentos sobre a vida, a posse sobre ela, entre outros; juntamente com uma amiga a quem o autor chama de “acompanhante nativa” – este ensaio dá título ao livro. Agora imagine-se viajando num cruzeiro pelo Caribe, mas olhando tudo através da refinada lente de um observador que surpreende por sua minuciosidade; e assim você passa pelas páginas do ensaio “Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer”. Nem bem saiu do cruzeiro, o leitor já acompanha Wallace noutra feira americana, mas desta vez focada na venda, produção e consumo de lagostas. O título “Pense na Lagosta” não é por acaso. Então pondo na mesa todos os argumentos, Wallace questiona até que ponto podemos acabar com uma vida, em virtude de atender o nosso paladar. E assim, depois da deliciosa reflexão, ou não, dependendo de cada estômago, surge uma palestra ministrada por Wallace sobre Kafka; onde ele analisa o porquê de a sociedade atual, pautada num humor instantâneo, não conseguir ver graça nos textos de Kafka. “Isto é água”, o texto que vem a seguir, é um discurso que o escritor proferiu como paraninfo; e que acabou se tornando um viral na internet. Fechando o livro, vem a crônica jornalística “Federer como experiência religiosa”, em que Wallace discorre sobre sua paixão pelo tênis, refletindo nos atributos esportivos do jogador suíço Roger Federer.

E finalmente, por que ler Wallace?
Se depois de tudo isso, você ainda não se convenceu; então aí vai mais um argumento. Para quem gosta de saber sobre o autor que existe por trás do texto; este livro cumpre com todas as expectativas. David Foster Wallace se suicidou em 2008, deixando um romance incompleto; porém se você conferir o livro, na minha opinião, já começa a notar alguns indícios desta possibilidade quando ele fala sobre a solidão de estar num cruzeiro. É só uma pitadinha a mais para despertar a sua curiosidade, mas acho que pode surtir efeito.

Como nada é perfeito, penso que ouve um equívoco em relação a escolha da capa do livro; pois algumas pessoas que me viram com ele na mão, chegaram a perguntar “que livro de adolescente era este que eu estava lendo”. Eu não me incomodo com isto, mas vale dizer que é um livro para quem gosta de pensar e se divertir ao mesmo tempo; e como tal, cumpre muito bem o seu papel.

Livro: Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo
Autor: David Foster Wallace
Editora: Companhia das Letras