Ser leitor serve mesmo para quê? Qual o papel da literatura na vida?

0
323

O que levou a Literatura a se distanciar tanto dos livros, seu propósito último, e curvar-se quase cegamente sobre si mesma? Qual o papel da literatura? Reflexão a partir de Todorov e Gagliardi

 A questão de Macabéa

Dentre as leituras que já fiz na vida, A hora da estrela, de Clarice Lispector, se destaca. Afirmo isso porque ela está entre aqueles títulos que conseguiram me causar uma prazerosa sensação de incômodo, que é capaz de acompanhar um leitor pelo resto da existência.

De todo o mal-estar que a narrativa clariceana me trouxe, não consigo abandonar a tentativa sempre frustrada de responder a uma pergunta simples e profunda feita pela Macabéa:

ser feliz serve para quê?

Assim que li a indagação, percebi se tratar de um questionamento há muito entranhado em mim, sem vir à tona. Aquela moça – nordestina, esfomeada e invisível em São Paulo – foi quem assumiu o papel de trazê-lo até meu consciente.

Essa leitura me fez reparar melhor naquilo que jazia em mim, traduzindo em palavras o que eu não havia conseguido até o momento: afinal de contas, por que diabos é que eu estou sempre tentando ser feliz? E o que é que eu faço com a felicidade depois de obtê-la? Poderia eu me contentar em ser infeliz ou afeliz (e, talvez enfim, me considerar feliz)? Tudo isso se desdobra ao infinito na minha cabeça desde então…

Incontáveis histórias antecederam e sucederam à de Macabéa. Comecei cedo no universo das palavras, correndo atrás do coelho junto da Alice. Inadvertida e inevitavelmente, entrei na toca. A partir daí, não pude mais parar de percorrê-la, já que a caminhada fascinante me aproxima de mim mesma e também do outro através dos personagens.

Passeando pelas obras, na vida e na escola

Em A literatura em perigo, Tzvetan Todorov nos conduz por uma reflexão sobre a questão do papel da literatura em nossa vida. Ele também discute o porquê de o ensino da matéria se mostrar tão distanciado daquilo que verdadeiramente nos motiva a ler.

Fato aparentemente esquecido pelas escolas, Todorov nos recorda que o leitor não profissional lê como modo de encontrar um sentido capaz de fazê-lo apreender melhor o ser humano e o mundo. Dessa forma, abre-se à capacidade de compreender mais também a si mesmo, esse sendo para si o papel da literatura.

Com esse livro, vieram-me muitas memórias de vida desde que me descobri leitora. Quando criança e adolescente, ler preenchia meus dias satisfazendo curiosidades, carências, necessidade de viajar, conhecer outras pessoas, culturas, concepções de mundo…

A leitura não me era um passatempo descartável: era parte da minha vida, tão indissociavelmente integrada a mim quanto respirar.

Livros diferentes me marcaram em diversos momentos.

Lembro com carinho quando descobri, na biblioteca da minha escola pública (onde eu habitava), as crônicas de um tal Fernando Sabino e os contos da misteriosa Clarice.

Recordo bem como, aos quinze, li com fervor Amor de perdição. E ainda tenho gravada na memória a forte impressão que me causou o monstro de Frankenstein, aprisionando-me em uma surpreendente delicadeza que tanto dizia sobre a natureza humana.

Na sequência, passei por verdadeira metamorfose moral junto ao homem comum e monstro-barata Gregor Samsa. Antes, aos quatorze, já havia me enveredado pelos caminhos de autodescoberta de uma personagem de nome cativante, Brida. Passei, então, a ler tudo que podia de Paulo Coelho. Não havia clássicos, essa coisa de alta ou baixa literatura. Só me havia com livros.

Com a descoberta das distopias, fiz conjecturas das quais antes não seria capaz. Quando conheci Admirável mundo novo, uma nova era do pensamento se abriu no meu cérebro. E jamais vou esquecer o dia em que segurei – com as mãos novas dos dezoito anos – meu primeiro Saramago, Ensaio sobre a cegueira. Adentrar um mundo apocalíptico em que as pessoas são inesperadamente privadas do sentido da visão me afetou como pessoa.

Não cito aqui nenhuma aula de literatura em específico, porque não foram elas as responsáveis por meu relacionamento com o mundo das palavras. É claro, algo me acrescentaram sim. Contudo, por sorte, havia um tio contador de causos e uma biblioteca admiráveis em meu caminho desde cedo, mostrando-me claramente o papel da literatura.

Anos depois, já formada em Letras, vejo-me questionar profundamente a forma como a famigerada disciplina “literatura” – cujo objeto de estudo transpassa minha história – é ensinada nas escolas.

O que levou a Literatura a se distanciar tanto dos livros, seu propósito último, e curvar-se quase cegamente sobre si mesma?

O lugar da obra no ensino da literatura

Recentemente, me deparei com o artigo Ensinar literatura: a que será que se destina?, de Caio Gagliardi, meu ex-professor da especialização. A certa altura, ele faz a perspicaz afirmação de que não se ensina literatura: a literatura, ela mesma, é que ensina!

Ao tomar como ponto de partida essa constatação tão intrinsecamente óbvia a leitores apaixonados, questiono o porquê da distorção feita na perspectiva do trabalho com a literatura nos ensinos fundamental e médio das escolas brasileiras. Qual o papel da literatura reconhecido nas escolas?

Unindo minha mínima voz à desses dois grandes nomes em que me apoio, reforço que vejo a necessidade urgente de que essa disciplina faça nascer novos amantes dos livros, e não que continue a minar o desejo de ler em cada estudante.

Todorov destaca, acerca do ensino da literatura na França, problemas também identificados em nosso país. Lá, como aqui, foca-se num tipo de aprendizagem técnica, que mais parece querer formar especialistas em análise literária, e não leitores.

Já Gagliardi pontua que, no Brasil, as aulas se restringem apenas à parte histórica: os movimentos literários. Ele observa que:

não há uma crise na literatura, mas sim no ensino dela.

Assim, constatamos que, em ambos os países, as obras mesmas, tomadas em seus sentidos profundos, ficam em segundo plano ou esquecidas.

Tal qual Todorov, concordo que essa metodologia fornece certa segurança ao professor, que pode fazer afirmações tão inquestionáveis como: “Este mês ensinei Romantismo, mês que vem vou ensinar Realismo!”. No entanto, conforme bem lembra o autor, esse caminho dificilmente terá como consequência o amor pela literatura.

O papel dos livros na contemporaneidade

Tanto o livro quanto o artigo enfocados neste texto trazem à pauta o seguinte questionamento: não seria esse modelo de ensino encaixotado, técnico, um reflexo social da necessidade de encontrar utilidade para tudo?

No contexto atual, para que serviria a literatura? Seu aprendizado não deveria, de fato, prestar-se a algo palpável e de rápido retorno numa época em que o tempo, sempre escasso, é contabilizado como moeda de troca? Senão, por que dedicar horas-aula a um objeto cuja apreensão não é quantificável ou mensurável, tampouco aplicável ao vestibular?

Além do mais, algo de natureza tão vasta e questionadora, que nos instiga a repensar constantemente conceitos, mais se aproxima de uma insubmissão. Deveria, alguns dirão, ser mantido sob controle, vigilância total.

Na atual sociedade hipercapitalista, há ainda tempo e lugar para a literatura?

Gagliardi (p. 343), então, levanta a seguinte pergunta retórica:

“E não será, aliás, por ser uma forma de atender a uma crescente demanda de produtividade que o historicismo (…) continua a determinar a perspectiva do ensino da literatura no país?”

De inutilidades

Para que serve, portanto, a literatura?

Constato: ela é o inútil indiscutivelmente indispensável ao ser. E é nessa “grande inutilidade”, característica intrínseca das artes, que reside sua beleza.

Calcando-me em uma das reflexões colocadas pelo filósofo Byung-Chul Han em Sociedade do cansaço, acredito que a literatura vem no bojo daquele ócio tão renegado atualmente pelo sujeito de desempenho pós-moderno. Sujeito esse que é constantemente impelido a estar a mostrar que produz algo. Sujeito esse que se esgota até o fim sem precisar de um patrão para escravizá-lo, explorador de si mesmo que é.

Ler é estar só e, apenas exteriormente, inerte.

A arte produz, de concreto, um absoluto nada. Esse nada nos é, todavia, profundamente essencial. Conforme afirma Todorov, a literatura tem um papel vital a cumprir em cada pessoa. Para isso, no entanto, é preciso que ela seja tomada em seu sentido amplo e intenso.

Qual seria a serventia de algo tão inútil como um livro de poemas? E se os poemas forem sobre formigas, caramujos, ciscos, crianças, essas miudezas todas que mal paramos para olhar?

Lembro aqui que Todorov destaca o fato de a obra literária ser capaz de produzir-nos um tremor de sentimentos, de abalar nosso aparelho de interpretação simbólica, de despertar nossa capacidade de associação e provocar um movimento cujas ondas de choque podem prosseguir por muito tempo.

Talvez por isso eu não seja capaz de apagar os efeitos de Tratado das grandezas do ínfimo, de Manuel de Barros. Aqueles versos parece terem vindo falar direto ao meu interior infantil e verdadeiro. Esse livro foi dos que me ajudou a constatar a enormidade de tudo que é pequeno e suas ondas ainda reverberam em mim, tão intenso foi o contato.

Sobre gigantes

Gagliardi (p. 341) afirma que “não se ensina literatura; ensina-se com literatura.”

O autor explica que aquilo que a literatura ensina não se pode descrever como uma mera transferência de conhecimento, pois não se trata de um conteúdo mensurável, ma sim de uma vivência. Na verdade, aproxima-se mais de uma experiência transformadora do que de uma disciplina escolar.

Pelo módulo ministrado por Gagliardi, aliás, é que pude ler Aspectos do romance, de E. M. Forster. Esse foi o livro responsável por moldar minha definição, até hoje, mais certeira da literatura: com base na vida real, a obra literária cria; ancorada nela, engendra seu mundo ficcional que, por sua vez, nos proporciona a possibilidade de compreendermos melhor a realidade.

É marcante a imagem usada por Todorov para se referir àqueles que lidam com a literatura. Para ele, nós – professores, críticos, especialistas – não somos mais do que anões sentados sobre os ombros de gigantes. Gigantes são os textos, as obras que escolhemos estudar por puro amor. E não há razão alguma para que essa pulsão seja reprimida em sala de aula!

Ao final dessas considerações, percebo que o contato com as reflexões alinhadas e complementares de Todorov e Gagliardi me serviram como um respaldo às inquietudes.

Ser feliz, talvez eu jamais possa responder que serventia tem. E esse é o ponto! Como leitora, percebo que o que instiga, o verdadeiro papel da literatura, não é a busca de respostas prontas: é conseguir “pescar na entrelinha” (parafraseando Clarice) as perguntas essenciais para o descortinamento como ser humano. Ler me é infindável obra aberta de possibilidades.

Referências

TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. 3. ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.

GAGLIARDI, Caio. “Ensinar literatura: a que será que se destina”. Remate de Males. Campinas-SP, p. 337-348, Jul/Dez., 2014.