As Virgens Suicidas – Qual a melhor versão: o livro ou o filme?

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Uma comparação entre a versão literária, de Jeffrey Eugenides, e a cinematográfica, de Sofia Coppola

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Lux, Mary, Bonnie e Therese, no filme de Sofia Coppola

Obra de estreia de Jeffrey Eugenides na literatura, As Virgens Suicidas também foi o primeiro longa (1999) da diretora Sofia Coppola. Ao se analisar as diferentes mídias que, possivelmente, contam a mesma história, nota-se certos contrastes que merecem atenção.

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Capa da edição publicada pela Companhia das Letras

Em síntese, o romance de Jeffrey Eugenides se assemelha a um coro lírico, permeado no decorrer das páginas por uma melancolia decadente, que se manifesta através dos narradores, garotos do subúrbio que observam a família Lisbon. Observam mais precisamente, as cinco filhas do casal: Therese, Mary, Bonnie, Lux e Cecilia. Logo no começo do livro, lida-se com o suicídio de Cecilia que, embora tenha falhado na primeira tentativa, cortando os pulsos, obtém o que desejava duas semanas depois, atirando-se do segundo andar sobre uma lança da cerca da casa. Desde o princípio, o leitor assimila, através dos narradores, que este fato irá acontecer, assim como o suicídio das demais irmãs. Como não se tem acesso ao ponto de vista das meninas Lisbon, limita-se a se obter informações através do quebra-cabeça montado pela visão dos meninos. E por este motivo, não se sabe ao certo as causas que levaram às consequências fatais.

Contudo, nota-se sempre alguns fiapos de compreensão passíveis de serem puxados aqui e ali. A repressão familiar, de tradições ou mesmo da religião, pode ser um dos principais motivos a serem elencados. Mas, também, a idade que as meninas têm, quando se passa a história, pode ser uma hipótese para a inadequação que sentem ao lidar com o mundo. Como, por exemplo, um diálogo em que o médico e Cecilia têm, assim que esta falha em sua primeira tentativa suicida:

– O que fazes aqui, querida? Nem sequer tens idade para saber como a vida pode ser má.

– É óbvio que nunca foi uma menina de 13 anos, doutor.

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Família Lisbon no filme de Sofia Coppola

A divergência literária e cinematográfica

Caso alguém leia a obra antes de assistir a adaptação cinematográfica, com um mínimo de perspectiva ficcional, perguntar-se-á que se há de fazer com o narrador criado por Jeffrey Eugenides, quando a história surgir na película? Posto que tal narrador dita o tom da obra, sem dúvidas, este seria o maior desafio.

Sofia Copolla fracassou, neste sentido.

Evidentemente, a tarefa de encontrar atores que se impusessem como os personagens do livro estava fadada a derrota. Ainda assim, a tentativa de propor que fossem os narradores daquela história visual deve, para quem não leu o livro, ter causado uma sensação de estranhamento negativa. Por vezes, os narradores são esquecidos, aparecendo outra vez somente quando uma voz do além (isso não é teatral demais para o cinema?) surge no filme – fato que se repete nas adaptações cinematográficas que falham.

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O roteiro filmado por Copolla é, em realidade, preguiçoso, pois se equivoca ao ser fiel demais ao livro nos fatos, porém não no tom da obra. No livro de Jeffrey Eugenides, percebe-se claramente a utilização, por exemplo, do espaço em favor da narrativa. A decadência da casa dos Lisbon representa o declínio de toda uma classe social, mas pouco disso se vê no filme. A fotografia da película lembra muito mais algo que se assista na Sessão da Tarde, evitando as cenas de sangue – como no momento em que Cecilia está morta sobre a grade e não se vê uma gota – do que toda a reflexão proposta por Eugenides.

Apenas como filme, pode até ser uma boa obra, mas como adaptação, deixa muito a desejar.

Cena do filme em que Cecilia se suicida. Presa a um arpão, não há sequer uma gota de sangue.