10 filmes com referências às obras de Franz Kafka

Kafka e cinema: dez filmes com referências às obras do escritor tcheco

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Cena de O processo, de Orson Welles

Há quem diga que só é possível ler apenas um livro de Franz Kafka em toda uma vida. A complexidade de suas obras, o texto duro e enxuto, as alegorias poderosas e viscerais levam o leitor à beira de um precipício emocional. Como já disse Ítalo Calvino, o homem de Kafka é deformado, condenado e aprisionado em si mesmo, mas não se pode culpar a literatura por esse caráter negativo e por ela não representar o mundo da maneira que desejamos. Quem ainda não leu A metamorfose, O processo, O castelo, apesar da distância com a obra original, passou perto, talvez sem perceber, da influência das ideias do escritor tcheco, sobretudo por meio do cinema.

A alusão à obra kafkiana ou pelo menos os sentimentos a que ela nos leva, como aflição, obsessão, ansiedade, sensação de perseguição, com toda atmosfera de surrealismo aparece em diversos filmes. O site Taste of Cinema listou os dez melhores:

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1. Império dos Sonhos (David Linch, 2008)

Qualquer filme do diretor norte-americano David Linch tem sua carga de esquisitices, já que ele mesmo já declarou que seus longas não precisam fazer sentido. Mas Império dos Sonhos (2008) e toda a viagem surrealista da narrativa nos leva a uma espécie de pesadelo sem fim. O espectador fica perdido entre sonhos dentro de sonhos e isso nada mais é do que uma característica puramente kafkiana. É impossível saber onde começa alguma coisa ou termina, um típico sentimento de prisão provocado pelas obras de Kafka.

2. De olhos bem fechados (Stanley Kubrick, 1999)

O último filme de Stanley Kubrick foi permeado de especulações sobre o fato de que pouca gente conseguiu mergulhar no enredo do longa. Muitos atribuíram à culpa à sempre polêmica atuação de Tom Cruise, que fez parceria com Nicole Kidman, quando ainda formavam um casal. O enredo mostra a história de um casamento aparentemente normal até que as obsessões de cunho sexual do marido começam a vir à tona. Kubrick abre o filme com a elegância característica do diretor, em que os movimentos da câmera e a história vão sendo contados de forma ampla até que a trama se reduz a um ponto da obsessão do protagonista. A mente obcecada é uma das principais expressões da obra de Kafka, registrada no filme de Kubrick de forma magistral. Em De olhos bem fechados, o lado sem escrúpulos do personagem e a tendência autodestrutiva se resumem a uma única obsessão: sexo.

3. Neblina e sombras (Woody Allen, 1992)

A experiência de ler Kafka pode ser triste e melancólica, mas também é possível rir, nem que seja de nervoso, das situações surreais vividas pelos personagens. A ironia fina e o teor tragicômico dos textos kafkianos também aparecem no filme Neblina e sombras de Woody Allen. O longa é baseado em um texto cômico do diretor de cinema chamado “Death” e é uma espécie de pastiche do livro O processo. No enredo, Woody Allen faz o papel de um investigador escalado para descobrir o culpado de uma série de assassinatos em uma pequena cidade europeia. Em seguida, passa a ser o principal suspeito dos crimes. O universo de Kafka permeia todo o filme: a necessidade de fuga, o estranho circo que chega à cidade fictícia, a trilha sonora que faz referência à Bertold Brecht e o final ambíguo, incompleto, trágico e ao mesmo tempo divertido, completam a lista de referências ao escritor.

4. Franz Kafka’s It’s a Wonderful Life (Peter Capaldi, 1995)

O curta dirigido por Peter Capaldi (o 12° Doctor Who) já tem no título um trocadilho: Franz Kafka com It’s a wonderful life, um filme dirigido por Frank Capra. É uma história imaginária que faz alusão ao texto de A metamorfose sobre uma possível noite de Natal em que Franz Kafka tenta escrever um conto, mas não consegue passar da primeira frase: “Como Gregor Samsa acordou em uma manhã de sonhos ruins e encontrou a si mesmo na cama transformado em um inseto gigante”. Mas que inseto é esse? Essa é a pergunta que oprime Kafka, interpretado no filme pelo excelente Richard E. Grant (integrante do elenco da temporada 2016 de Guerra dos Tronos).

5. Videodrome (David Cronenberg, 1983)

Com altos e baixos em sua filmografia, David Cronenberg também não é um diretor dado a entregar narrativas simples, especialmente em Videodrome – A síndrome do vídeo, considerado por muitos sua obra-prima. É um filme conceitual, que trata essencialmente do voyeurismo de nossos tempos e a principal alegoria utilizada no longa é a passividade (ou prisão para ficar mais próximo de kafka) diante das imagens de vídeo.

6. Brazil (Terry Gilliam, 1985)

Terry Gilliam foi um dos integrantes de Monty Python e diretor da comédia distópica Brazil, que faz uma mistura de referências literárias, porém, em grande parte, remete ao livro O processo, já que o personagem central se vê enterrado sob diversos trâmites burocráticos que provocam uma série de erros em um grande sistema que controla a sociedade. O erro começa com um inseto que cai em uma máquina de escrever.

7. O inquilino (Roman Polanski, 1976)

Com roteiro criado por Roman Polanski, o Inquilino é considerado o filme mais psicológico do diretor, que também é protagonista da trama e faz um típico personagem kafkiano. Ele faz o papel de Trelkovsky, um polonês que vai viver em Paris em um apartamento onde a moradora anterior cometeu suicídio. Aos poucos, torna-se vítima da própria obsessão pela inquilina antiga e, diante do comportamento estranho dos vizinhos, começa a se convencer que querem matá-lo. A estrutura do filme gerou diversas especulações sobre o sentido da trama e conexões com a realidade, com fatos nunca esclarecidos por Polanski.

8. A audiência (Marco Ferreri, 1972)

O livro O castelo é uma das principais inspirações para esse filme italiano, dirigido por Marco Ferreri. Mais uma vez, um personagem acaba preso no emaranhado burocrático e um homem de nome Amedeo tenta a todo custo falar com o Papa, porém, é barrado pelos sistemas políticos e hierárquicos do Vaticano. O espectador se vê diante de um personagem que quase não muda de expressão o filme todo, mas, ao contrário de tornar-se enfadonho, é possível se identificar com as estranhas situações com as quais se defronta, porque, afinal, Amedeo pode ser qualquer um de nós.

9. O processo (Orson Welles, 1962)

Essa é uma das poucas adaptações diretas da obra de Franz Kafka. Porém, Orson Welles não se intimidou com as dificuldades de transpor a narrativa de O processo para as telas, apenas deslocou a trama para os anos de 1950. O diretor se utilizou de lentes grande angular para criar a atmosfera opressiva e claustrofóbica da obra de Kafka. O ator Anthony Perkins faz o papel de Josef K., um homem acusado de um suposto crime e luta para se defender de algo que sequer sabe se cometeu ou não.

10. Depois de horas (Martin Scorsese, 1985)

A única maneira de sobreviver e sair do inferno que se tornou apenas uma noite na vida de Paul Hackett, vivido pelo ator Griffin Dunne, é rir. O tom tragicômico de Kafka aparece revitalizado por Martin Scorsese em Depois de horas. Após conversar animadamente com uma moça em um bar, o personagem é levado a um sem fim de infortúnios, a começar pela perda da única nota de 20 dólares que carregava no bolso, e se vê aprisionado em uma teia de acontecimentos que leva o personagem a ser confundido com um bandido e passa a ser perseguido por todos.

Dora Carvalho Author

Dora Carvalho é jornalista e doutoranda em Comunicação e Práticas do Consumo pela ESPM-SP. É leitora voraz de clássicos à livros de fantasia. Adora autores britânicos, mas, de vez em quando, cai de amores por escritores italianos e da América Latina. Escreve como autora no blog sobre cinema e séries +Cinelivre: www.maiscinelivre.blogspot.com.b