6 Depoimentos sobre livros que ficaram melhores após a segunda leitura

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Salvos pela segunda leitura: por que parece difícil gostar de alguns livros logo de cara?

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Ilustração de Mészely Ilka

 

“Como é importante ler aquele livro! Olha como ele é clássico hoje, quanta técnica, enredo bem construído, os conflitos, o quanto ele representa de sua época, vamos passar a tarde a falar dele.”

Se você e eu gostarmos dele, claro!

Não temos tempo para ler todos os bons livros, e nem sempre gostamos dos que lemos. Às vezes, precisamos de uma segunda leitura para entender melhor uma obra, e não há mal nenhum nisso, pois somos leitores em constante (re)formação –  e o conteúdo de
um livro nem sempre se revela de imediato.

Por isso, alguns colaboradores do Homo Literatus falam sobre um livro do qual não gostaram na primeira leitura, mas deram uma segunda
chance à obra e hoje a abrigam entre suas boas referências.

 

Larissa AdurLucíola, de José de Alencar

Se não fosse meu amor por José de Alencar, não teria terminado de ler Lucíola. Mas, tive de engolir tudo de uma vez ou não leria mais nada, foi muito rápido. Primeiramente, ele me passou a impressão de ser uma adaptação de A Dama das Camélias, de Dumas Filho. A mesma crítica social, quase o mesmo enredo… E não sou a única a achar isso. Depois, eu sempre adorei Marguerite (a protagonista do A Dama…) e quase odiei a Lúcia. E, então, algum tempo depois decidi reler os dois livros. Continuei adorando a Marguerite, principalmente porque ela se sacrifica pela felicidade dos outros e isso é realmente tocante. Para reler Lucíola, decidi pensar menos em Dumas e me concentrar na crítica social que Alencar estava fazendo. Afinal, eu não estou na França. Lúcia me pareceu muito melhor da segunda vez. Mesmo um pouco egoísta e cruel, passei a acreditar realmente no amor que ela sentia e, principalmente, captei bem melhor a mensagem que José de Alencar quis passar com o livro. Percebi que era equívoco meu desprezar a obra só porque gostei mais da protagonista do A Dama das Camélias, que é tão parecido com ele.

 

Mario Filipe CavalcantiA paixão segundo G. H., de Clarice Lispector

Li a bendita obra pela primeira vez num trem, indo pro aeroporto buscar um amigo e engoli o livro inteiro com a ânsia de um faminto, mas no final não havia sacado o clímax maior da história, que não está no fato de G. H. comer a pasta branca amarelecida da barata, mas em toda a sua metamorfose existencial no animal interior, portanto, em todo o labiríntico caminho repleto de loops do meio. É que para sacar Clarice é necessário um degustar tranquilo e despreocupado do instante. O momento da leitura é tal qual o instante-deus em que a obra foi parida. Havia “entendido” a obra na primeira lida, mas amar, amar como amo agora, só na segunda e Lispector sabia bem disso (não fui o único).

 

Vilto ReisMadame Bovary, de Gustave Flaubert

Um dos mais importantes romances da literatura ocidental, quando em minha primeira leitura, não me impressionou muito. As descrições me pareceram demais, além do ritmo sonolento. Contudo, anos depois, li A Orgia Perpétua, um estudo sobre o livro de Flaubert escrito por Mario Vargas Llosa. Mais do que dissecar a obra-prima do escritor francês, Llosa demonstra a técnica literária de Flaubert em um tempo que muito pouco havia se pensado sobre o assunto. Na releitura que fiz, após este apoio literário, o livro me pareceu outro, muito melhor.

 

Nicole AyresO Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

Na primeira vez que li O Pequeno Príncipe, fiz uma leitura desatenta, imatura. Li por ler, esperando não sei exatamente o que. Achei o Principezinho um chato, a história sem graça… Não cheguei a odiar, fiquei quase indiferente à obra. Anos depois, quando peguei para reler, já no original, tive uma percepção muito diferente. Me apaixonei pela sensibilidade do narrador, pela filosofia simples e profunda do Princepezinho. Afinal compreendi a poesia oculta naquele livro nem completamente infantil nem propriamente adulto, mas essencialmente humano; por isso se tornou um clássico. Se não tivesse dado essa segunda chance à obra, ela me teria passado batida e hoje faria falta na minha bagagem literária.

 

Sérgio TavaresDom Casmurro e Memórias Póstumas, de Machado de Assis

Não costumo voltar aos livros que não gostei. Dos prediletos, sim. Revisito-os sempre que posso, sobretudo durante o processo de escrita. Mas eu tinha uma grave resistência a Machado de Assis, pois seus livros me foram apresentados na hora errada, de maneira errada. Até que comprei uma coletânea chamada Os melhores contos de loucura, e lá figurava O alienista. Li e achei que era hora de desfazer essa má impressão. Retornei a Dom Casmurro e Memórias póstumas…, os que fui obrigado a ler na escola “para fazer prova”. Foi um bom reencontro, embora Machado siga fora do meu clube sentimental de leitura. Seu poder literário, no entanto, é indiscutível.

 

Walter BachO Estrangeiro, Albert Camus

Minha primeira leitura de O Estrangeiro me irritou muito. O protagonista perde a mãe, e mal responde algo sobre ela quando questionado. Uma ação sua pesa (profundamente) sobre a vida de um personagem coadjuvante, ele tampouco se importa com isso.
Me pareceu como se ele não sentisse afeto ou ódio por qualquer outra criatura, e suas atitudes ao longo do romance não mudaram minha primeira impressão.
Precisei de outras leituras, não tanto de O Estrangeiro, mas de outras ficções para entender como essa apatia do protagonista força quem lê a se posicionar diante do que se tem nas mãos. Não se trata de confiar no ponto de vista apresentado ou encaixar quem narra como herói ou vilão, mas de tentar entender as razões e a formação do personagem destacado.