A cegueira da visão na atualidade: a lucidez de José Saramago

José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira, trata das mais variadas questões sobre a humanidade, sobretudo das relações interpessoais em momentos de crise
Ensaio sobre a cegueira e José Saramago
José Saramago
Na epígrafe está a obra

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”: esta é a epígrafe de Ensaio sobre a cegueira e, conforme José Saramago, epígrafes muitas vezes são o melhor que os livros têm.

Sendo assim escolhida como provocação inicial, a citação acima nos auxilia pelos caminhos interpretativos da obra. O próprio autor já orientava, a quem que não quisesse ler seus livros, para que lesse ao menos as epígrafes. Por elas, já saberia de tudo!

Olhar, ver e reparar. Como diferenciar tais vocábulos, relacionando-os à parábola do mundo de cegos criada pelo escritor português? Acima de tudo, como trazer sua significação para a época atual?

Dessa forma, a citação nos leva a questionamentos outros, fazendo uma ponte com a realidade e com nossa capacidade de apreensão dela. Mesmo tendo, como seres humanos, o atributo de olhar o mundo, nós conseguimos ver o que se nos apresenta? Ao vermos, somos capazes de reparar profundamente nessas coisas?

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

O momento histórico em que existimos, marcado pelas práticas do capitalismo, frequentemente rompe os limites que nos mantêm humanos.

Nos dias atuais, com suas disparidades que nos afrontam o bom senso, estamos nós, ao olharmos, sendo capazes de ver e reparar, ou estamos mansamente habituados às mazelas que se nos apresentam aos olhos?

“Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante”, declarou Saramago em seu discurso ao receber, em 1998, o Nobel de Literatura. Como contestar essa afirmação?

Vivemos num mundo tomado por profunda intolerância e desigualdade. Esta é uma sociedade que ainda discrimina e mata os diferentes; que ainda expulsa imigrantes; que ainda julga pela classe social, cor, orientação sexual e pelo gênero. Nesta civilização altamente tecnológica, certamente não faltam comida, terra e teto. Ainda assim, sobram esfomeados, sem-terra e sem-teto!

Anestesiadamente talvez, este mesmo mundo parece que olha e não vê, tampouco repara. Vive e esquece. Repete erros, anda em círculos. É capaz de vibrar (inocentemente?) com discursos de ódio já velhos conhecidos de épocas sombrias passadas. É capaz de apoiar posturas extremistas como se solução fossem para as mazelas atuais.

De tão esclarecidos atualmente, parece que cegamos para o óbvio. A mesma luz vinda do conhecimento ilimitado nos teria conduzido ao breu branco da cegueira da visão?

 

A parábola do mal branco

Assim como a experiência de viver na sociedade contemporânea, ler os romances do autor é enveredar por mundos que nos chocam, de tão agressivamente absurdos, mas reais.

Num primeiro contato com o estilo saramagueano, são despedaçadas todas as nossas crenças sobre o que é ou não Literatura. Somos levados a questionar o que pode ou não na escrita, o que soa bonito ou feio…

Quanto ao enredo, ler Saramago é ser abraçado por histórias que não nos deixam em paz até concluirmos a última página. Entretanto, elas também não nos permitem esquecê-las quando o livro acaba. Perguntamo-nos: o que esse emaranhado de coisas quer mesmo dizer?

No romance Ensaio sobre a cegueira, de 1995, uma epidemia que passa a se denominar de mal branco cega estranhamente a população, como se um mar de leite lhes embaciasse a visão.

Em síntese: a história se passa com personagens sem nomes, na época atual, porém em um ano e local indefinidos. A primeira pessoa a cegar é um motorista parado no semáforo. Em seguida, um médico que com ele mantém contato. Depois, uma rapariga de óculos escuros e, assim, o mal segue se espalhando como que pelo ar. Inexplicavelmente, a mulher do médico é a única que não perde a visão ao longo do romance.

Como tentativa de contenção da doença até encontrarem uma cura, o governo envia todos os cegos para um manicômio. Ali, eles têm de viver por conta própria, recebendo somente comida e alguns mantimentos por dia. A mulher do médico consegue se infiltrar no meio dos cegos a serem transferidos. Assim, se passando por cega, ela permanece no manicômio durante todo o período de isolamento.

“Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante?”

O local aos poucos vai estabelecendo suas próprias leis. Por fim, torna-se um mundo em escala menor, só que habitado por cegos.

A perda do sentido da visão vai animalizando os internos. Destacamos a pouca importância dada por eles para se chamarem pelos nomes. Assim agindo, já mostram que se reconheceriam por outros meios (voz, cheiro, caminhar). Com o desenrolar da trama, traços que caracterizam a dignidade humana vão se dissolvendo. O asseio, a higiene pessoal, deixam de ter um porquê e os corredores do local se tornam banheiros a céu aberto. Pessoas morrem. Se antes eram enterradas do modo mais digno possível, isso vai perdendo a razão de ser.

Afinal, quando ninguém mais pode observar e julgar o homem, o que sobra da humanidade cultivada socialmente? Somos levados a essa reflexão através de uma fala do médico: “Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são”. (Saramago, p. 128)

O manicômio, com seus internos divididos por celas, vai se configurando num campo de lutas e barbárie. Um grupo de cegos malvados toma o poder e passa a impor condições cada vez piores para que as pessoas recebam um pouco da comida e dos suprimentos. O ápice acontece quando os algozes exigem os corpos das mulheres como moeda de troca. Já então inimaginável de se viver, o lugar torna-se o inferno em Terra. As descrições cruas que o narrador faz das cenas de estupro são desesperadoras.

Nesse contexto, os cegos, lá abandonados por um governo que deveria protegê-los, sofrem exploração moral e sexual de pessoas que se encontram na mesma situação! São humanos explorando humanos para obter, pelo sofrimento alheio, uma condição melhor de sobrevivência. A cegueira dos olhos dos internos remete metaforicamente à cegueira da razão que acomete todos em sociedade, em algum grau.

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A despeito dos fatos, a narrativa de Saramago não é sempre desoladora. Ao mesmo tempo em que vemos o pior lado do homem animalizado, vemos também bondade e altruísmo. A mulher do médico é o maior exemplo: para acompanhar o marido, submete-se aos horrores do manicômio, tendo a desvantagem de enxergar a tudo. Ainda que anonimamente, ela passa a ser a protetora do grupo de cegos da cela a que pertence. Ali, todos criam um laço fraternal e se protegem.

Perto do desfecho, um incêndio obriga os cegos a fugirem do encarceramento. Ao escapar, o grupo se depara com uma cidade (talvez o mundo inteiro) completamente destruída pelo mal branco. Alguns poucos seres humanos, agindo como animais, buscam sobreviver pelas ruas.

Por fim, as personagens decidem permanecer juntas em busca da sobrevivência. Sendo assim, elas reforçam a solidariedade conquistada no encarceramento. Pouco tempo depois, todos começam a voltar a ver. O primeiro é o médico, a segunda, a rapariga dos óculos escuros. Um a um, a visão vai retornando.

“Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são”

Tal como veio, o mal branco foi embora: de repente. Deixou apenas uma testemunha para recontar tudo que ocorreu: a mulher do médico. Parece que Saramago a escolhe como visão necessária aos dias de cegueira e voz fundamental dos dias que virão. Ela é a memória, sem a qual um povo não pode aprender as lições imprescindíveis para a sua evolução. “É através de seus olhos que leitores e vítimas da catástrofe poderão juntar as peças que aos poucos lhes permitirão recuperar sua humanidade. É como se o autor sugerisse: se podes reparar, não esqueça.” (Licarião, p. 10)

Como conclusão, Cegueira foge do formato clássico das distopias ao não respeitar o desfecho padrão do gênero. No livro, temos um “final feliz” com esperanças de resgate e talvez de melhora da sociedade.

 

Os cegos “iluminados”

Nas últimas linhas da história, num diálogo entre o médico e sua mulher, é feita a seguinte observação: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que vendo, não veem.” (Saramago, p. 310). Portanto, a visão perdida em Cegueira se confirma como um símbolo da cegueira da razão antes mencionada.

A necessidade da criação dessa alegoria vem da lucidez do autor sobre os dias em que vivemos. Nossa evolução nos conduz por descaminhos onde pouco se observa de compaixão. É raro o cultivo de sentimentos elevados, que poderiam nos conduzir a uma sociedade mais igualitária, em que todo homem é respeitado desde seus direitos mais básicos.

Nos dias de hoje, distribuir é ato ameaçador, “comunista”. Acumular sem questionar é o modo de vida aceitável. A informação (abundante, rápida e de fácil acesso) confunde, atordoa, engana. Paradoxalmente, nunca pudemos saber tanto e nunca fomos tão ignorantes. A História se tornou algo moldável, passível de ser facilmente reescrito a cada tweet e comentário. Os horrores do Holocausto agora parece que foram inventados. Do mesmo modo, a ditadura que vivemos vai se diluindo no tempo, junto aos seus rastros de tortura e morte. Somos cegos que não veem a própria cegueira, porque ela nos veio disfarçada de iluminação. E a Terra (pasmem!) já é quase plana novamente.

Ao final do livro, quando todos vão retornando ao velho hábito da visão, alguém diz: “em verdade começa a parecer uma história doutro mundo aquela em que se disse, Estou cego.” (Saramago, p. 310).

Em síntese, a frase acima representa o grande medo atual: que não aprendamos com os tempos de cegueira, tão destruidores. Sendo assim, voltaremos a nadar no mar branco e leitoso da ignorância dos desmemoriados.

 

REFERÊNCIAS

DUARTE, Lívia Lemos. Barbárie e humanização, no Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Disponível em: <http://ceijguairaca.blogspot.com/2010/05/barbarie-e-humanizacao-no-ensaio-sobre.html>. Acesso em: 10 de out. 2018.

LICARIÃO,  Berttoni Cláudio. A experiência do olhar e o teor testemunhal em Ensaio sobre a cegueiraDarandina Revisteletrônica – Programa de Pós-Graduação em Letras/UFJF, v. 5, n. 1, ISSN 1983-8379, p. 1-15.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

SILVA, Anderson Pires da. As impurezas do branco: Ensaio sobre a cegueira como distopia positiva. Ipotesi, Juiz de Fora, v. 15, n. 1, p. 47-55, jan./jun. 2011.

TEIXEIRA, Gilberto Lopes. A violência é cega: reflexões em torno de Ensaio sobre a cegueira de José Saramago. Aurora, v. 7, 2010. Disponível em: <www.pucsp.br/revistaaurora>. Acesso em: 10 de out. 2018.

Dri Calderaro Autor

Uma curiosa da palavra escrita, contada, cantada. Leitora e questionadora incurável. Formada em Letras, especializada em Literatura. Amante de Filosofia e Psicologia.