As 10 piores adaptações literárias no cinema

10 adaptações cinematográficas que são muito inferiores às obras originais

O cinema busca histórias em muitos lugares, principalmente na literatura. As chances de dar certo e os exemplos bem sucedidos são muitos (veja aqui), porém esse nem sempre é o caso. Os motivos são variados: obra complexa, más escolhas (complete a lista com o que quiser).

Escolhemos dez adaptações que são reconhecidamente consideradas muito abaixo dos seus originais. As adaptações foram escolhidas segundo a crítica no cinema, relevância da obra original dentro da literatura e repercussão para além da época de ambas as obras – e, claro, gosto pessoal.

(Por favor, não pense que verá citações da saga Crepúsculo, pois não esperávamos nada delas.)

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Capitães da areia

Uma das obras de Jorge Amado mais amadas pelo público. O autor baiano teve muitas de seus romances e novelas adaptados para a televisão e o cinema. Esse filme, porém, está muito abaixo de todas as outras adaptações. Dirigido pela neta de Amado, Cecília Amado, o filme é confuso e não faz muito sentido para quem não leu o romance. Além disso, cenas importantes da obra original, que mostram as contradições dos personagens e suas mudanças, foram ocultados – o que transforma a narrativa em algo excessivamente simplória e sem graça.

As viagens de Gulliver

Jonathan Swift escreveu uma das grandes sátiras da sua época – e quem sabe de todos os tempos. Gulliver apresenta de forma irônica as sociedades francesa e inglesa da época, suas falhas e contradições: uma paródia digna do século XVIII. Com tiradas inteligentes, Swift criou uma obra que influenciaria muitos autores ocidentais e teria muitas adaptações. Já o filme estrelado por Jack Black não funcionou em nenhum nível. Piadas prontas e fracas, tentativa de modernizar a narrativa com efeitos especiais, nada deu certo neste filme.

A Fogueira das Vaidades

Não havia, absolutamente nada que pudesse dar errado com este filme (teoricamente): o texto original de Tom Wolfe aborda de maneira magistral e sardônica a vida da nova Wall Street da década de 1980; tinha a direção de ninguém menos de Brian De Palma, então no seu auge; o elenco contava com Bruce Willis, Tom Hanks e Morgan Freeman. No entanto, nada deu certo. O filme não mantém a força do original em nenhum ponto e tenta tornar os personagens mais agradáveis.  Morgan Freeman disse há alguns anos que, com certeza, foi o maior pesadelo durante sua longa carreira. É considerada por acadêmicos da área de cinema uma das piores adaptações da história.

Watchmen

A graphic novel de Alan Moore é considerada por muitos uma das grandes obras da segunda metade do século XX, quer no campo literário, quer no campo dos quadrinhos. Há de tudo nela: suspense, uma boa história, reviravoltas, ideias complexas que demandam uma reflexão do leitor, ótimos traços. A escolha de Zack Snyder, diretor de outra adaptação dos quadrinhos, 300, parecia ser o caminho para o sucesso. O filme, contudo, não tem agilidade e não consegue manter o suspense que o original de Moore. A mudança do final para uma versão mais soft foi a cereja do bolo de uma das piores adaptações de graphic novels já feitas.

Enquanto Agonizo

Há livros que são muito complexos e difíceis de serem transpostos para outros suportes aquém daqueles disponíveis pela literatura. Alfred Hitchcock sabia disso muito bem. James Franco não sabia. O romance de William Faulkner não chega a ser complexo, entretanto os vários pontos de vista apresentados durante o desenrolar da narrativa se tornam difíceis de serem passados – e a sensação de que estamos num suspensos e sendo manipulado por todos. Franco tentou usar truques cinematográficos para suprir a dificuldade e falhou. Pensando em Hitchcock, há livros que dão boas adaptações, outros, não.

O Hobbit

Os filmes da trilogia O senhor dos anéis foram um marco do cinema na virada do século. Peter Jackson construiu três longos filmes, cheio de efeitos especiais, boas narrativas e capaz de ser tão admirado pelos fãs quanto os três romances que os inspiraram. Já a trilogia d’O Hobbit não chegou a tanto. As três adaptações feitas partem de um romance curto e não tão complexo quanto os três volume de O senhor dos anéis. Para os fãs, ficou a sensação de que o importante nessa adaptação não era a qualidade, mas a quantidade (de dinheiro).

O Código Da Vinci

Dan Brown se apropriou da fórmula bem sucedida de Umberco Eco em O nome da rosa para criar um romance não tão complexo, mas tão interessante quanto o do autor italiano. O caso é que ambos os romances, magníficos cada qual nas suas propostas, têm algo mais em comum: geraram adaptações cinematográficas muito fracas. Robert Langdon, o personagem-chave da trama, não tem nenhuma força nos cinemas. As atuações de Tom Hanks no papel (que continuaram noutra adaptação e que continuaram em outras) transforma um personagem interessante em um clichê entediante e óbvio. Um filme lento e sem os grandes suspenses criados por Dan Brown.

Memórias Póstumas

Como dito acima, há filmes que nunca deveriam ser adaptados para o cinema. Os tipos de códigos intersemióticos disponíveis nessa plataforma demandam enredos e paisagens com as quais o diretor possa trabalhar. O romance de Machado de Assis não se encaixa em nenhuma dessas características. É uma obra complexa e psicológica que, caso atentarmos melhor, não nos ganha pelo enredo – até certo ponto simples -, antes pelas especulações e psicologia do defunto-autor. Essa, como outras adaptações, pega por tentar transpor um objeto complexo para um meio com suas limitações. Cheio de citações diretas do romance, o filme acaba por ser chato – às vezes sem sentido para quem não conhece a obra de Machado.

O Guia do Mochileiro das Galáxias

Douglas Adams escreveu um grande romance. Engraçado, provocativo, com um enredo delirante sem ser dispersivo, o autor inglês criou um dos clássicos da Sci-Fi que já foi considerado uma mistura de Star Wars com Monty Python. Por muitos anos, esperou-se por adaptações da obra no cinema. O resultado, porém, é decepcionante. As tentativas de se manter o humor inglês e as tiradas de Adams não funcionaram. Os personagens parecem um tanto apáticos e patéticos – mas nada engraçados.  Um filme que tinha tudo para ser muito bom – e não foi.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)