Castro Alves, um poeta para os escravos

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A incrível facilidade de se expressar por meio de hipérboles, antíteses, metáforas e diversas figuras de linguagens fez com que a obra de Castro Alves se tornasse grandiosa

Castro-Alves

O Romantismo no Brasil foi uma das épocas mais ricas quanto à produção literária, especialmente por se tratar de temas que expressavam muito bem o contexto social do momento e revelando grandes autores. Entre as gerações românticas temos a Condoeira, que recebeu esse nome em referência à ave Condor, simbolizando a liberdade tanto dos negros que foram escravizados como dos autores em se expressarem sobre este tema. Um dos grandes nomes desta fase é o autor Antônio Frederico de Castro Alves (1847 – 1871), nascido em Curralinho na Bahia, cidade que posteriormente receberia seu nome em homenagem, começou a escrever aos dezessete anos de idade e já possuía algumas peças encenadas e declamadas. Era filho do médico e professor da faculdade de Medicina de Salvador, Antônio José Alves, e de Clélia Brasília da Silva.

No ano de 1853 se muda para Salvador juntamente com sua família, estudando no mesmo colégio de Rui Barbosa. Desde esta época ficou evidente sua paixão pela poesia. No ano seguinte publica seu primeiro poema contra a escravidão, intitulado A Primavera.

Em 1854 ingressa na Faculdade de Direito do Recife, participando ativamente do meio acadêmico e literário, mas acaba retornando a Bahia no mesmo ano e volta à Recife em 1855 juntamente com seu amigo Fagundes Varela.

Em 1866 Alves inicia um intenso caso de amor com Eugênia Câmara, partindo juntos para a Bahia onde ela iria apresentar um de seus dramas, O Gonzaga ou a Revolução de Minas. Depois disso ele parte ao Rio de Janeiro onde conhece Machado de Assis, quem o ajuda a se inserir no meio literário.

Em 1868 de férias e durante uma caçada nos bosques da Lapa acaba ferindo o pé com um tiro de espingarda, a ferida acaba infeccionando e causando a amputação do pé.

Em 1870 volta a Salvador onde publica Espumas Flutuantes.

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Praça Castro Alves. Salvador, Bahia.

A incrível facilidade de se expressar por meio de hipérboles, antíteses, metáforas e diversas figuras de linguagens fez com que a obra de Alves se tornasse grandiosa. Não eram apenas assuntos isolados que eram tratados por ele, mas a realidade vivida da sociedade em cada momento quando ele escrevia, como por exemplo, a Independência da Bahia e a Inconfidência Mineira. Isto era um aspecto diferente que Alves possuía em comparação aos poetas da primeira geração, ele se voltava para as angústias e injustiças sociais, enquanto os outros apenas estavam preocupados com o próprio ego, com os próprios sentimentos. Podemos perceber tais aspectos em dois de seus poemas; Boa Noite, que é o momento em que o autor estava envolvido amorosamente com Eugência Câmara, deixava transparecer a poesia lírico-amorosa, onde a idealização da mulher cede lugar para uma mulher real e sensualizada. Os poemas desta sua fase estão presentes na publicação de Espumas Flutuantes, que reúnem 53 poemas cujo tema se estende entre a passagem da vida e da morte até o amor sensual ao sentimental.

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O segundo momento é quando o poeta se volta para os problemas sociais, denunciando as desigualdades, os abusos sofridos pelos negros durante a imposição que os obrigavam a deixarem suas terras para serem mantidos escravos, nem com o mínimo de condições básicas para a sobrevivência. Alves pedia a natureza e as entidades divinas para que pudessem ver todo aquele horror que estava se passando bem diante de seus olhos, todo esse clamor ficou imortalizado no poema Navio Negreiro. Por toda sua preocupação com os negros ficou conhecido como o poeta dos escravos. Castro Alves morreu em Salvador, Bahia, no ano de 1871 vítima de tuberculose.

Trecho de Navio Negreiro:

Canto VI

Existe um povo que a bandeira empresta 
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!… 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!… 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio.  Musa… chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! … 

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança… 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!… 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!