Daimon junto à porta evidencia a presença extra no cotidiano

Daimon junto à porta, seleta de contos de Nelson Rego, brinca com a ideia de uma presença extra junto aos personagens – e ela funciona como elemento de transição e também como incentivo para o que eles gostariam de fazer desde o começo

Nelson Rego Daimon junto à porta
Nelson Rego, colecionador de daimons

Um daimon anda à espreita das pessoas, acompanhando seus cotidianos enquanto escolhe sua hora favorita para interagir. Nenhum personagem de Daimon junto à porta, seleta de contos de Nelson Rego publicada pela Dublinense em 2011 e laureada com o Prêmio Açorianos do mesmo ano, faz a menor ideia disso. Eles vivem seus dias como podem, até a entidade se manifestar – a vida dos personagens é só um brinquedo. Daí para frente pode acontecer de tudo, de soco na cara até beijo na boca.

Mais do que beijos, se considerar o conto-abertura Platero e o Mar. É um misto de erotismo e perda de inocência, a dos demais e a dos que cercam a protagonista Inocência; a suposta qualidade que a nomeia é tão fingida quanto as pausas (calculadas) de suas companhias – mas podemos trocar essa palavra por comparsas e o efeito será o mesmo. O desfecho do conto pode soar previsível, mas o seu foco é a sua condução, como se houvesse alguém sussurrando às personagens o que fazer.

Esse efeito de sussurro fica muito mais evidente nos contos Recital do Mortos e Tecelagem do Mal. O Recital começa linear, temos a protagonista contando em primeira pessoa como foi que o Seis parou na casa dela. Podia ser um número especial, mas é o nome adotado por um médium, que o pai dela “contratou” por razões espirituosas. Pela visão da protagonista, o Seis parece um filho bastardo da Mãe Dinah com o Nostradamus; pela do seu pai, o caminho para a tranquilidade (monetária). Depois que as consultas do médium se tornam tão poderosas a ponto de ter um culto em volta dele, a mudança de atitude da protagonista é tão forte que a gente pode achar que ela precisa de uma consulta. Vai além de mera desconfiança, e isso ganha força quando um ingrediente vital à narradora é mencionado pelo filhote mediúnico.

Já o conto Tecelagem do Mal possui outro teor. Narrado também em primeira pessoa por um padreco recém-ordenado e ciente de uma farsa – o tonto aceita fazer um exorcismo. A franqueza dele para com quem lê se contrapõe à encenação que ele topa. Ele mal sabe latim, mas inventa umas palavras para aumentar o drama do expurgo. E parte de sua narrativa dá a impressão de que mal sabe coisa alguma, embora ciente do problema em suas mãos. Mas depois de expulsar o demo, há uma transição nada sutil no conto. O padre continua um sujeito sem foco ou credibilidade aparentes, mas ele não está mais sozinho. Na sua cabeça, tem alguém o acompanhando, ainda que isso o confunda mais do que o guie.

Daimon junto à porta, a presença que une os contos

Daimon junto à portaA palavra Daimon pode ser interpretada como entidade, espírito, gênio, a palavra que melhor se adequar, considerando as (des)apropriações linguísticas e contextuais. Não significa um ente maligno, como uma fácil associação entre essa palavra e a palavra “demônio”, pode sugerir. O livro tampouco foca nesse aspecto supostamente “maligno”, nem se preocupa com o mofado binômio bem/mau. Um dos focos pode ser notado na transição dos personagens, com os desfechos de alguns contos mostrando atitudes contrárias as de seus inícios, sendo previsíveis ou não. É como se o daimon estivesse o tempo todo ali, sentado no ombro dos personagens. Ele só aproveita o cotidiano deles para fazer a sua deixa e bagunçar o que eles acham que sabem.

O conto Na verdade é isso aí, Ó evidencia essas características. Narrado inteiro por meio de diálogos e sem um protagonista claro, ele abusa da recriação da linguagem oral para contar uma ideia. Desde o início está claro que o autor da ideia é um trambiqueiro, e seus métodos uma coleção de gambiarras, formadas por estudos abandonados e bondade oportunista, mas uma ideia. Ele só precisava de alguém para o ouvir. E colaborar com dinheiro, porque é isso aí que faz as coisas acontecerem, ó.

Daimon junto à porta é unido por essa ideia de uma presença extra. Nós, leitores, estamos conscientes dos personagens e, em parte dos contos, mais do que eles sobre si. Trazendo à tona o que alguns não gostam de admitir, a ação definitiva, mas nunca tomada por mera inércia. Ou a ideia camuflada por um sentimento qualquer, à maneira do conto focado no parágrafo anterior. Todos são observados por alguém que está e não está ali, esperando a sua vez de abrir a porta.

Walter Bach Author

Colaborador do Homo Literatus desde 2014, demente profissional (vulgo editor) desde 2016.