O Faroeste feminista de ‘Godless’, da Netflix

Godless, minissérie da Netflix,é um faroeste onde as mulheres dão voz à série

Godless
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Uma minissérie da Netflix que veio pra salvar o ano de 2017 foi, sem dúvidas, Godless. A produção criada por Scott Frank e produzida por Steven Soderbergh e Casey Silver, lançada no último 22 de novembro, traz um enredo típico de faroeste, a princípio, no entanto, desemboca numa das grandes produções cinematográficas da história a ter participação feminina extremamente ativa. Um faroeste feminista.

Isso porque, ao contrário dos típicos filmes de Velho Oeste onde a participação feminina se resume à das donzelas em perigo ou à das mulheres dos bordéis, isto é, a uma espécie de satélite sem valor próprio, que orbita os interesses dos heróis machistas, Godless chega pra aprofundar a participação da mulher como outros filmes e séries já tentaram fazer desde 1950, a exemplo de The Furies (Anthony Mann), Johnny Guitar (Nicholas Ray) e The Homesman (Tommy Lee Jones).

A trama deste faroeste feminista

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O enredo é simples: Roy Goode (Jack O’Connell) é um “fora da lei” integrante do bando de mais de trinta bandidos do Frank Griffin (Jeff Daniels), que, embora considerado como um filho pelo Frank, acaba desertando do bando. Essa deserção acaba desencadeando uma perseguição sem escrúpulos por todo o Oeste. Goode, ferido, procura abrigo na fazenda de Alice Fletcher (Michelle Dockery), nos arredores de La Belle (Novo México), uma cidade mineira habitada em sua esmagadora maioria por mulheres, uma vez que 90% dos homens havia morrido num acidente da mina. A busca desenfreada de Frank e a força das mulheres de La Belle, levam a série à catarse artística, com cenas extremamente bem elaboradas e uma fotografia impecável.

O que desponta deste faroeste feminista, Godless, todavia, como em toda obra artística bem elaborada, não é, necessariamente, o que está estreitamente atrelado ao seu enredo, mas os penduricalhos, isto é, as cenas e situações simples que se desenrolam no entremeio.

Isso porque, toda a minissérie se desenrola enquanto a igrejinha de La Belle está sendo construída e permanece à espera do pastor que foi designado para o lugar. Essa simples constatação catapulta o próprio nome escolhido para título, uma vez que, todos na minissérie vivem a reboque de um deus e, por assim, dizer, órfãos sem qualquer necessidade dele. A despeito disso, a necessidade de alguns de que esse pastor chegue, é meramente sem sentido, como diria o Frank Griffin:

“o mesmo Deus que nos fez a mim e a você, criou a cobra cascavel. Isso não tem sentido!”.

 

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Muito já se disse nesses poucos dias em que esta série estreou na plataforma de streaming da Netflix. Já se disse se tratar de um faroeste feminista, e já se disse que a série não tem nada de feminista, utilizando os papéis das mulheres meio que para “matar os demônios” de Hollywood. No entanto, matérias como a que saiu recentemente no canal Volts parecem esquecer por completo a criação e aprofundamento de grandes personagens femininas, inclusive feministas, como Mary (Maggie) Agnes (Merritt Wever) que, à guisa de seguir suas vidas abandonadas de quaisquer referências masculinas (como deus ou os homens), reconstrói seu mundo com independência, dignidade e força. O diálogo abaixo é um recorte de inúmeras cenas em que o empoderamento feminino está presente:

“Bill: você não é mais maternal.

Maggie: Maternal?

Bill: Bem, sim.

Maggie: Eu amo meu marido, que ele descanse em paz, e eu também adoro Willie e Trudy [os filhos de Bill]. Mas acabei com a noção de que a felicidade de mim e de minhas irmãs deve ser encontrada na maternidade e no cuidado”

Não se pode perder de vista, inclusive, a bela construção de personagens homoafetivos que se dá na minissérie, o que vem em bora hora se considerarmos o avanço das ideias protofascistas que vêm retornando ao mundo ocidental, contra as liberdades sexuais, a igualdade de gênero e racial, etc.

Enfim, este faroeste feminista, Godless, é a série que veio fechar com chave de ouro um ano tão turbulento como 2017, da qual brota não um entretenimento barato, mas uma obra cinematográfica que se pode dizer, sem dúvidas, artística. E não é na arte que se encontra o que há de melhor no mundo?

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Trailer Oficial:

 

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Mario Filipe Cavalcanti Author

Advogado graduado pela Ufpe, escritor, prêmio Pernambuco de literatura com o livro "Caninos amarelados" (Cepe, 2016), leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e, sobretudo, absolutamente nada.