Literatura e política: por que devemos pensar as duas juntas?

Literatura e política devem andar juntas ou a literatura, assim como o resto da arte, deve se eximir de um viés mais político?

literatura e política
La Guernica, de Pablo Picasso
Literatura e política combinam?

Literatura e política vivem em ambientes diferentes para muitos. A primeira existe no mundo das ideias e do prazer enquanto o segundo campo é o mundo prático da tomada de ação. No entanto, uma breve olhada na história ocidental mostra a relação umbilical de ambos.

Platão expulsou os poetas da sua república por um motivo simples: política. A discussão sobre o limite da interferência no que se faz em questão de arte e da sua autonomia é o centro dessa famosa passagem da República.

Assim, pode-se ver o correlato entre ambos em vários momentos, seja para o bem ou para o mal.

Rússia: um exemplo

Por exemplo, a Rússia e seus autores foram capazes de criticar o status quo com autores como Gogol, Dostoiévski e Tolstói. Dessa forma, Gogol apresentou os problemas políticos e econômicos da Rússia interiorana em Almas Mortas. A obra de Dostoiévski pode ser lida como uma grande crítica à política russa da época, entre outros pontos. Tolstói usou sua obra como uma forma de combate ao regime servil existente na sua época.

No entanto, a mesma Rússia, já União Soviética, usou a mesma literatura de forma diferente. O realismo socialista usou da literatura, assim como da arte no geral e do design, como propaganda política. Tudo que fosse prejudicial, ou seja, contra os ideias políticos vigentes, era considerado ruim e banido.

Logo, afirmar que literatura e política não andam juntas é algo inocente.

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Qual é o real potencial da política na literatura?

De fato, além do exemplo soviético, a literatura e a política podem ser consideradas como pontos distintos de um mesmo todo.

Romances como os de Jorge Amado foram capazes de mostrar várias facetas de problemas nacionais, desde a pobreza ao preconceito. Seu poder político real enquanto arte emana daí. À sua maneira, Jorge Amado mostrou o poder da opressão e do capital na Bahia e como eles subjugavam seu povo.

Victor Hugo e o seu Os miseráveis são outro exemplo disso. Ao retratar a história de Jean Valjean e Cosette, Hugo nos deu um amplo painel de como era a política francesa da época: implacável com os pobres, cínica consigo mesma.

Então, o que dizer de romances como Cem anos de solidão? Uma obra capaz de englobar a história política de um continente acostumado aos desmandos, internos e externos?

A grande obra de Garcia Márquez fez algo politicamente até então impensável: contou a história da América Latina a partir da nossa perspectiva. Não só isso, mas também fez com que o mundo inteiro prestasse atenção em nós pelo nosso viés.

Algumas abordagens contemporâneas

As obras feministas e pós-coloniais têm o mesmo poder, só que de forma diferente.

As primeiras abordam a questão histórica do feminino e como ela sempre foi relegada ao segundo plano. Ela mostrou que a realidade não é tão dada ou universal como se pensava. Ela tomou seu terreno e nos faz repensar acerca do mundo em que vivemos e das suas estruturas.

Da mesma forma, as literaturas pós-coloniais apresentam os problemas das ex-colônias e o impacto de anos de exploração. O mundo se despedaça, de Chinua Achebe, mostra os problemas do contato do homem europeu num vilarejo igbo. Outras tantas obras também mostram o impacto da colonização europeia, dos saques e abusos em vários lugares do mundo.

Isto não é o centro da literatura: nos fazer repensar o mundo e como o observamos?

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, nos traz a realidade uma mulher negra africana nos EUA. Ao mostrar a história de Ifemelu, Chimamanda apresenta um rico painel de relações de poder e seus jogos. Os deslocamentos de Ifemelu e de seus conhecidos, como Obinze, jogam com a política racial americana, a política estatal nigeriana, a política e economia dos imigrantes nigerianos nos EUA e na Inglaterra. Quem negaria o poder real desta obra e o impacto dela?

Política e literatura? Sim

Em resumo, literatura e política sempre andam juntas. Escritores são testemunhas de tragédias e problemas sociais. Como tantos outros artistas, podem apresentar o que há de errado e tentar mudar o mundo a sua volta.

Separar literatura e política, bem como diminuir o potencial da literatura na nossa realidade, é cercear nosso próprio potencial enquanto humanos.

Em tempos em que se discute o retorno da barbárie, a literatura se torna uma arma de defesa.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)