O Romantismo ridicularizado em “Coração, cabeça e estômago”

Coração, cabeça e estômago é uma chance de reconciliação com parte da produção do Romantismo

Camilo Castelo Branco, a cabeça satírica do Romantismo

O Romantismo é um período literário conhecido por seus extremos. O amor extremo, o sofrimento extremo, o escapismo extremo. Um dos escritores que ajudou a cristalizar esse extremismo na literatura portuguesa do século XIX foi Camilo Castelo Branco, ancorado em romances como o seu Amor de Perdição, escrito, segundo o próprio, em uma espécie de convulsão (extrema, claro) de apenas quinze dias. A publicação dessa obra se deu em 1862, mesmo ano em que o autor surpreende com o lançamento de Coração, cabeça e estômago, um interessante romance satírico sobre os padrões românticos que ele mesmo ajudou a estabelecer.

Se os exageros da estética incomodam a sua sensibilidade pós-moderna, caro leitor, esse é um livro que pode lhe agradar. Isso porque o autor lança mão de uma série de recursos para ironizar os ideais românticos que tomaram conta da sociedade no período. Um dos mais interessantes é justamente o que acabei de usar neste texto: a metalinguagem. Temos aqui uma obra narrada, a princípio, por seu próprio protagonista, Silvestre da Silva, como se fosse um livro de memórias que ele teria escrito ao fim da vida; no entanto, essa “papelada”, como é chamada no texto, teria sido deixada a um amigo de Silvestre para que este a organizasse e publicasse, e é a voz desse amigo-editor que abre e fecha o romance, fazendo algumas intervenções e comentários ao longo da obra. Esse tipo de recurso não era novo no período, já que atestava para uma espécie de “realidade” maior do relato, como se o texto contado fosse mais de teor documental do que ficcional. Contudo, Camilo Castelo Branco trabalha-o de forma inteligente, valendo-se dessa duplicidade para escarnecer o protagonista a todo momento – seja por parte do editor, que volta e meia ironiza a sua pouca habilidade literária ou a sua inocência para a vida, seja por parte das próprias ações de Silvestre, facilmente percebidas como ingênuas, pouco verdadeiras ou motivadas por um egocentrismo infantil. Os dois trechos abaixo (o primeiro narrado pelo amigo, o segundo, por Silvestre) evidenciam esse modelo duplamente crítico utilizado pelo autor:

Os manuscritos de Silvestre careciam de ser adulterados para merecerem a qualificação de romance. É coisa que eu não faria, se pudesse. (…) No volume denominado Coração encontro algumas poesias, que não translado, por desmerecerem publicidade, sobre serem imprestáveis ao contexto da obra. Não designam as pessoas a quem foram dedicadas, nem me parecem coisa de grande inspiração. Silvestre, em poesia, era vulgar; e a poesia vulgar, mormente na pátria dos Junqueiros, dos Álvares de Azevedo, dos Casimiros de Abreu e dos Gonçalves Dias, é um pecado publicá-la.

O meu noviciado de amor passei-o em Lisboa. Amei as primeiras sete mulheres que vi e que me viram.

Outro modo de construção dessa sátira é evidenciar os dogmas românticos, particularmente os que extrapolaram sua presença na literatura e alteraram comportamentos sociais. Silvestre mostra como esses hábitos, observados em outros e até em si, trazem consigo uma falsidade, um modismo, uma adequação a noções pouco saudáveis ou naturais. Dois trechos que chamam a atenção nesse sentido são aquele em que o protagonista revela a montagem de sua aparência de forma a parecer perturbado e doentio, apenas para divulgar socialmente seu ceticismo com o amor, e aquele em que reprova a adoção desses mesmos padrões pelas moças do Porto, ressaltando o quão pouco atrativos e perigosos são.

Na minha qualidade de cético, entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem da minha da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal, que chamasse a atenção e aguçasse a curiosidade dum mundo já gasto em admirar cabeças não vulgares. A anarquia dos meus cabelos custava-me dinheiro e muito trabalho. (…)

A minha cara ajeitava-se pouco à expressão dum vivo tormento de alma, em virtude de ser uma cara sadia, avermelhada e bem fornida de fibra musculosa. (…)

Ao deitar-me, corria levemente algumas pinceladas sobre a cútis, que desce da pálpebra inferior até às proeminências malares; ao erguer-me, tinha todo o cuidado em não lavar a porção arroxada pela tinta, e com uma maçaneta de algodão em rama desbastava a pintura nos pontos em que ela estivesse demasiadamente carregada. O artístico amor com que eu fazia isto deu em resultado uma tal perfeição no colorido que até o próprio médico chegou a persuadir-me, de longe, que o pisado dos meus olhos era natural, e eu mesmo também me parece que cheguei à persuasão do médico. Fiz, pois, de mim uma cara entre o sentimental de Antony e o trágico de Fausto.

Ai!, dez anos depois, a mulher do Porto já não era assim, não!

Tinha passado por elas o bafo pestilencial do romance. Liam e morriam para a verdade e para a natureza legítima. Invejavam a palidez das pálidas e a espiritualidade das magras. Tal menina houve que bebeu vinagre com pó de telha; e outras, mais suspirosas e avessas ao vinagre, desvelavam as noites emaciando o rosto à claridade doentia da lua. Algumas tossiam constipadas e queriam da sua tosse catarrosa fingir debilidade do peito, que não pode com o coração. Muitas, à força de jejuns, desmedravam a olhos vistos e amolgavam as costelas entre as compressas de aço do colete.

O terceiro modo como a obra busca ironizar o Romantismo tradicional pode ser percebido num dos trechos acima: trata-se da ridicularização do protagonista. Silvestre da Silva, no início do romance, é um idealista, acredita na verdade e pureza dos sentimentos (daí o seu primeiro nome), particularmente do amor e da justiça. Nesse sentido, tomará uma série de ações ao longo da história que lhe mostrarão, uma após a outra, o quanto esses valores românticos idealizados são incompatíveis com a vida na sociedade portuguesa. As mulheres que ama – de forma leviana, vale dizer, o que o torna uma figura ainda mais desprezível pelo tamanho de sua hipocrisia – exibem gradualmente atitudes práticas, interesseiras e até vulgares, de acordo com a moral da época. Uma casa-se com o padrinho rico e logo esquece o protagonista; outra o humilha em seu afeto pois já possuía um amante; outra ainda, que ele sente culpa em trair, já o traía antes… Enfim, nada há de sentimento nobre e verdadeiro, de uma parte ou de outra, nessas pequenas histórias amorosas relatadas nas memórias do protagonista. Um ponto particularmente interessante nesse processo é que, em certas ocasiões, nós leitores é que precisamos perceber o ridículo dos ideais vazios de Silvestre; mas, em outras, ele mesmo assume um papel autocrítico, ao estilo de um Brás Cubas ainda vivo, analisando seus comportamentos de juventude sob um olhar mais maduro e cínico. É um formato que prende o leitor por provocá-lo a acompanhar Silvestre até o limite de seus insucessos, fazendo-o imaginar quando e de que forma o seu posicionamento diante da vida vai finalmente se modificar.

Apesar de todos esses elementos satíricos e pouco lisonjeiros em relação à estética, a obra ainda não pode ser considerada realista, dado que não oferece um olhar tão feroz diante das hipocrisias burguesas quanto fará, posteriormente, um Eça de Queirós, e nem se furta de, aqui e acolá, cair em determinados clichês românticos. Eles estão particularmente evidentes na parte em que Silvestre fala sobre Marcolina, sua última paixão, que representa a prostituta de bom coração já explorada em obras de sucesso na época como A Dama das Camélias, ou no final, quando comove-se com o afeto da simplória Tomásia por seu coração inocente e apegado a Deus. Para alguns, esses momentos pontuais podem incomodar diante do andamento irônico da maior parte do romance, mas vale a pena olhar para eles como elementos com força de atração para o público, que pode, ao mesmo tempo, reconhecer-se na crítica feita pelo autor e ainda assim, como um prazer secreto, ceder a um idealismo amoroso fácil. Lembremos, afinal, que era esse o sentimento que norteava o mercado leitor do período, sendo o responsável pelo sucesso retumbante de Amor de Perdição no mesmo ano.

Para aqueles a quem o melodrama romântico não cativa, Coração, cabeça e estômago é a chance de uma reconciliação com o maior nome português do período.

Carolina Prospero Author

Professora de Literatura e Redação. Formada em Letras pela Unicamp, fez lá também o seu mestrado, no qual trabalhou com a obra da musa-mor Clarice Lispector. Escreve de vez em quando, muito menos do que gostaria. Adora livros, séries e o seu gato Dante.