O sucesso de Machado de Assis nos EUA: Black Voices Matter!

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O sucesso de Machado de Assis nos EUA: Black Voices Matter!

Nova tradução de Memórias Póstumas de Brás Cubas, lançada nos Estados Unidos este mês, alcança vendagem estrondosa e consagra Machado

Um clássico brasileiro se tornando mundial

Um clássico do século XIX da literatura brasileira é relançado em plena pandemia de 2020 e, em poucas horas, a nova edição se esgota nos Estados Unidos. Há alguns meses, provavelmente o cenário acima pareceria improvável, principalmente se considerarmos a resistência em ler literatura brasileira lá fora. Entretanto, foi exatamente isso que ocorreu.

No dia 02 de junho, foi disponibilizada, sob o selo Penguim Classic, uma nova edição em inglês de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Intitulada The Posthumous Memoirs of Brás Cubas, a cuidadosa tradução – que levou cinco anos – ficou a cargo de Flora Thomson-DeVeaux. O prefácio do exemplar é assinado por Dave Eggers, responsável pelo elogioso artigo “Rediscovering one of the wittiest books ever written” (Redescobrindo um dos livros mais engenhosos já escritos), publicado na revista The New Yorker no mesmo dia do lançamento.

Ao que tudo indica, a inusitada narrativa do nosso conhecido defunto-autor chegou aos EUA com fôlego novo e arrebatando leitores.

Em entrevista à Flavia Vieira no canal do Youtube MyNews, Thomson De-Veaux conta como  estranhou o fato de, na manhã do dia 02, seus amigos não estarem conseguindo adquirir o livro pelos sites de vendas. Foi, então, pega de surpresa quando seu editor a avisou do sucesso avassalador da obra: a tiragem havia se esgotado em um único dia!

Em 16 deste mesmo mês, vimos ainda ser disponibilizada outra edição revista do clássico, com tradução de Margareth Jull Costa e Robin Patterson. No site da Amazon, a versão impressa do livro já consta igualmente como “não disponível”.

Por ora, resta o e-book de ambas as obras aos mais afobados e adeptos da leitura por meio digital.

O maior escritor brasileiro era: preto, pobre e periférico

Conforme a tradutora do livro lembra no artigo A gestação do menino diabo, escrita na Revista Piauí, por coincidência a data de lançamento do livro é bem próxima do 151º aniversário da morte de Brás Cubas, ocorrida “às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869”.

Coincidentemente ou não, essa grande repercussão da obra aconteceu ainda mais perto do aniversário de nascimento do escritor. Machado de Assis nasceu no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, em 21 de junho 1839 – em pleno período regencial e ainda escravocrata.

O escritor é neto de um casal de escravos alforriados e fruto da união de um negro com uma portuguesa branca, Francisco José de Assis e Maria Leopoldina da Câmara Machado, ambos pobres.

De origem humilde, Machado estudou pouco, sempre em escolas públicas, e nunca frequentou universidade.

Autodidata, suas biografias retratam como lutou para conquistar um lugar ao sol na sociedade da época. Antes dos dezoito, o jovem ingressou como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, depois foi revisor e colaborador do Correio Mercantil e, após essa experiência, tornou-se redator no Diário do Rio de Janeiro.

Junto a colegas próximos, Machado de Assis idealizou e fundou a Academia Brasileira de Letras, da qual foi eleito presidente perpétuo.

Parece que toda a genialidade do escritor não foi suficiente para que sua afrodescendência fosse reconhecida abertamente pela elite branca que historicamente domina a cultura brasileira. Aqui no Homo Literatus, por exemplo, já fizemos uma matéria sobre como um professor da Faculdade de Direito do Recife criticava a literatura de Machado, por conta da sua cor de pele. E, de fato, não tendo nada que retocar na obra machadiana, foi na cor da pele que seus haters focaram. Suas fotos, por exemplo, parecem ter sido embranquecidas e sua origem nunca frisada.

É possível imaginar o quanto é incômodo à elite de um país dominado pelo racismo estrutural como o nosso, ter um negro que se destaca até mesmo entre os gigantes mundiais, aclamado como seu escritor maior.

No entanto, em entrevista à Revista do Instituto Humanitas, o professor doutor Luís Augusto Fischer observa que, felizmente, é possível identificar uma mudança nessa postura a partir dos anos 80. Desde então, a origem de Machado de Assis tem sido cada vez mais reconhecida e destacada para o público.

Machado de Assis crítico social

Na literatura de Machado, em geral, não predomina a personagem marginalizada. Ele destacou em seus livros, principalmente, as classes privilegiadas da época. Muito em função disso, as obras machadianas nem sempre foram vistas como representativas da causa negra. Por muito tempo, o autor foi tratado, inclusive, como colaboracionista, quase conivente com a exploração dos negros, o que é absurdo.

Mas isso se dá porque o Brasil da época de Machado possuía uma população de analfabetos muito maior do que hoje e quem lia era a elite branca. Assim, por meio dos artifícios retóricos da ironia e do sarcasmo, Machado de Assis foi retratando essa própria elite branca corrupta e preguiçosa, que, acostumada a todo o trabalho duro ser realizado por escravos, não se considerava digna de fazer suar o seu rosto, como aliás dizia o Brás Cubas:

 “coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto”.

Machado de Assis no contexto do Black Lives Matter

Memórias Póstumas desponta nos EUA em meio às manifestações do movimento Black Lives Matter, iniciadas em função do brutal assassinato do cidadão negro George Floyd por um policial branco.

Esse foi o estopim para que a insatisfação com o preconceito contra negros e imigrantes se transformasse em enormes protestos pelas ruas, mesmo durante a atual pandemia de COVID-19.

A questão que paira é se o quadro atual norte-americano contribuiu para o sucesso do livro no país. É difícil não fazermos de imediato tal ligação. Seria natural acreditar que Machado, autor negro e periférico, se popularizaria nesse contexto.

No entanto, como observa Thomson De-Veaux, para uma conclusão mais cuidadosa, é necessário “deixar a leitura decantar, ver quem é esse público que o livro alcançou e como ele será lido por eles“.

Nos tempos atuais, porém, por si só a repercussão no exterior de um representante consagrado da nossa cultura já é bastante alentadora para nós, brasileiros. Isso vem como um contraponto de peso à imagem abalada do país diante do mundo, entre outras coisas, por causa da falta de controle no avanço da pandemia por aqui.

À frente de seu tempo

É importante destacar a grandiosidade de Machado, responsável por uma obra que abrange praticamente todos os gêneros literários.

Aquelas tidas como suas obras-primas – Dom Casmurro e Memórias Póstumas, por exemplo – mostram uma genialidade que escapa a qualquer encaixotamento em escola literária única.

A escrita machadiana é vanguardista, revolucionária.

Talvez por esse motivo Memórias Póstumas seja tratado nos Estados Unidos como realismo fantástico, classificação nunca feita aqui no Brasil. A obra do autor se mostra inovadora e com facetas múltiplas, abrindo-se para diversas perspectivas de análise.

Mesmo inserido no contexto histórico que engendrou o Realismo e o Naturalismo, o escritor extrapola as diretrizes dessas escolas.

Das inovações dos textos de Machado, destacamos pontos altos como:

  1. a metalinguagem, que acontece quando o narrador interrompe a história para falar da própria história;
  2. a conversa com o leitor, uma espécie de quebra literária da quarta parede, possibilitando que o narrador se dirija diretamente àquele que lê, provocando-o, questionando-o, introduzindo-o de forma singular na narrativa.
  3. a construção de enredos não-lineares e a presença de digressões, isto é, desvios do assunto principal;
  4. o humor e a ironia finos – ora amargos e pessimistas, ora divertidos –, que visam à crítica ao ser humano em sociedade; e
  5. a análise psicológica das personagens.

Dave Eggers, no citado artigo da The New Yorker, elogia Memórias Póstumas como uma das obras mais inteligentes, lúdicas, vivas e atemporais já escritas, capaz de não envelhecer e atravessar os séculos. Ele questiona o fato de, até hoje, o livro não ter sido lido pela maioria dos falantes de língua inglesa.

Infelizmente, por motivos diversos, a realidade é que também muitos brasileiros ainda não conhecem Machado de Assis como deveriam. Quem sabe essa repentina repercussão do escritor na gringa não ecoe por aqui de forma a nos ajudar a (re)descobri-lo?!

Referências:

ASSIS, Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Klick Editora, 1999.

EGGERS, Dave. “Rediscovering one of the wittiest books ever written”. In: The New Yorker, 02 jun. 2019. Disponível em: <https://www.newyorker.com/books/second-read/rediscovering-one-of-the-wittiest-books-ever-written>. Acesso em: 21 jun. 2020.

NECCHI, Vitor. “A polêmica tentativa de embranquecer Machado de Assis”. In Revista do Instituto Humanitas Unisinos. Ed. 517, 18 dez. 2017. Disponível em: <http://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/7177-a-polemica-tentativa-de-embranquecer-machado-de-assis>. Acesso em: 22 jun. 2020.

VIEIRA, Flávia. “Machado de Assis, o brasileiro que tá bombando nos EUA”. Youtube: MyNews, 16 jun. 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=MkMYQl4UhsI>. Acesso em: 21 jun. 2020.

THOMSON-DEVEAUX, Flora. “A gestação do menino diabo”. In: Piauí, Ed. 165, jun. 2020. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/gestacao-do-menino-diabo/. Acesso em: 22 jun. 2020.

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