“Livros para o Amanhã”, introduzindo a criançada no saber político.

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Em bate-papo com o editor do HL, Ivana Jinkings, fala sobre a coleção “Livros para o Amanhã” e a importância de introduzir a criançada no saber político

Livros para o amanhã e para o hoje

Em maio desse ano lançamos uma matéria intitulada “Quatro livros para empoderar suas crianças hoje!”, na qual falávamos da Coleção “Livros para o amanhã”, lançada originalmente em Barcelona, pós ditadura de Franco em 1977, resgatada atualmente pela editora espanhola Media Vaca, e que ganhou edição primorosa no Brasil pelo selo de livros infantis Boitatá, da Boitempo. Remetemos o leitor que ainda não conferiu, àquela matéria.

Ainda no lastro da coleção, importante resumir que os quatro livros ensinam às crianças o que são classes sociais, suas construções e como combater a desigualdade social e a discriminação, as igualdades e diferenças entre as mulheres e os homens e a necessidade de uma compreensão democrática sobre o papel do gênero na sociedade, como as democracias podem ser e porque a pluralidade é tão importante nesse regime político e o que as ditaduras são, quais os argumentos enganosos dos líderes autoritários e porque as liberdades de expressão e os direitos à privacidade são destruídos nesses regimes.

Hoje vamos conversar com Ivana Jinkings, editora-chefe da Boitempo, sobre essa coleção, ver quais os desafios do lançamento no Brasil e a importância desse tipo de publicação para o público infantil.

De Editor pra Editor, bate-papo Homo Literatus com a Boitempo

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HOMO LITERATUS – O que é a coleção ‘Livros para o amanhã’?

IVANA JINKINGS – Lançada originalmente em 1977 pela extinta editora catalã La Gaya Ciencia (de Barcelona), a coleção foi recuperada em 2015 pela editora Media Vaca (de Valencia), preservando os textos mas contratando artistas contemporâneos para repensar a arte e ilustrá-los. De forma didática e ricamente ilustrados, os volumes pretendem ser uma introdução – aos pais e educadores, dentro e fora de sala de aula – a temas de interesse social e cidadania, além de promoverem um convite ao debate. Os livrinhos surpreendem por sua atemporalidade. Além de serem essencialmente introdutórios, o volume A democracia pode ser assim compara, por exemplo, a democracia com um recreio, onde podemos fazer tudo aquilo que queremos desde que certas regras sejam seguidas, e em outro volume compara a ditadura com um ditado, que é quando alguém dita alguma coisa e nós temos de repetir, só porque “é assim”. E os quatro títulos da coleção oferecem um roteiro de questões que podem ser usados, tanto por pais quanto por educadores, para organizar atividades como debates, discussão em grupo, redação etc. 

Entendemos que política também é coisa de criança

HL – Como se deu o trabalho de edição no Brasil pela Boitatá?

IJ – A série Livros para o Amanhã marcou a estreia do selo Boitatá, em 2015, quando a Boitempo completou vinte anos de existência. Há tempos buscávamos uma linha de livros infantis que fosse a “cara” da Boitempo, e essa coleção tinha exatamente esse perfil. Foi amor à primeira lida! Fizemos pequenas adaptações nas edições originais, inserindo em cada uma um texto de apoio produzido por um especialista brasileiro. E outros pequenos “detalhes”, como inserir caricaturas dos nossos ditadores no volume A ditadura é assim

HL – Qual é o objetivo de apresentar temas como “democracia”, “ditadura”, “classes sociais” e “diferenças de gêneros”, para crianças, acabaram-se os contos de fadas?

IJ – De forma alguma! Acabamos de publicar o livro Lute como uma princesa: Contos de fadas para crianças feministas! E temos vários outros que ajudam a desenvolver a imaginação dos pequenos. A leitura de ficção é essencial para a formação e deve ser estimulada, sempre. Temos muitos títulos infantis assim em nosso catálogo: Pinóquio, do Alexandre Rampazo, é um exemplo, assim como os livros da Olga de Dios e os da Janaina Tokitaka, entre tantos mais.

“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas” Mario Quintana

HL – Qual a proposta da Boitatá, enquanto selo editorial para a infância?

IJ Entendemos que política também é coisa de criança. Buscamos publicar obras que agucem a curiosidade, levantem dúvidas e que possam de alguma forma contribuir para o processo de “aprender a aprender”. Ou seja, que enriqueçam o imaginário, apontem formas diversas de ver e de organizar o mundo, com o cuidado de não serem esquemáticos, dogmáticos, totalizantes. Que sirvam de ferramenta, que ajudem a pensar, a introduzir temáticas cidadãs, como direitos humanos, representatividade, cidadania e todas as questões que cercam o seu dia a dia, de forma direta ou indireta.

Durante seu amadurecimento, a criança naturalmente pratica política, seja questionando regras, seja estabelecendo combinados, seja elaborando a própria rotina dentro de casa e na escola etc.

HL – É possível reinventar o futuro, através da leitura dos brasileirinhos?

IJ – Com certeza. Como disse Mário Quintana, “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. A Boitatá pretende ajudar a construir nos pequenos uma consciência mais cidadã. Livros, filmes e brincadeiras, além de os entreter, exercitam justamente isso: a forma como ver, compreender e participar do mundo.

É por isso que trabalhadores precisam ser protagonistas de histórias, é por isso que uma heroína mulher é importante, é por isso que personagens negros são importantes, é por isso que falar de diversidade amorosa e de arranjos familiares diversos é importante, porque tudo isso se soma e também forma o imaginário. Se uma criança cresce entendendo que tudo isso é “normal”, que todos são iguais e merecem respeito, ela naturalmente será mais tolerante.

Discutir política com crianças dessa idade é fundamental, pois é quando desenvolvem a autonomia e também o interesse por assuntos dessa natureza. Durante seu amadurecimento, a criança naturalmente pratica política, seja questionando regras, seja estabelecendo combinados, seja elaborando a própria rotina dentro de casa e na escola etc. E nessa fase ocorre um salto qualitativo muito importante, de assimilação de conceitos abstratos, o que será basal para a elaboração da leitura crítica, da capacidade de análise.

Para a criança, perceber que essa ferramenta é útil para alterar sua própria realidade (por exemplo, um debate na escola que desemboca na alteração de alguma regra do uso da quadra de esportes) é um grande estímulo para seu crescimento. Em vez de “doutrinar”, esperamos que nossos infantis sirvam de material de apoio ao educador para trazer determinados assuntos – que entram no universo infantil independentemente de nossa vontade – para dentro da sala de aula, para serem tratados de forma apropriada. Se não tiverem espaço nem orientação para trabalhar com isso, as crianças acabam muitas vezes (como temos acompanhado em escolas) extravasando de forma violenta.

HL – Há algum projeto da editora e/ou parceria com o poder público para disponibilização de exemplares a crianças menos favorecidas socialmente por meio de escolas públicas, etc.?

IJ – Com o poder público, neste momento, não. Mas temos feito parcerias com alguns grupos e entidades que trabalham com educação e formação de crianças e jovens das periferias. Doamos exemplares para compor cestas que foram entregues a famílias carentes pela Rede Emancipa, em São Paulo; para entidades que trabalham com remissão de pena e outros grupos focados em educação em São Paulo e na Bahia.

Coleção Livros  para o amanhã: