Quatro livros para empoderar suas crianças hoje!

1
381

Quem disse que Democracia, ditadura, questões de gênero e diferenças de classes sociais não são assuntos para crianças? Precisamos de crianças empoderadas hoje!

  1. “Você acredita que um país consegue funcionar bem numa democracia?”
  2. “Será que é possível ser feliz numa ditadura?”
  3. “O que poderia mudar na nossa sociedade para que as pessoas fossem mais felizes?”
  4. “Quem deve mandar mais nos negócios, na casa, nos hospitais?”

 

Não se engane, essas perguntas foram feitas originalmente entre 1977 e 1978 pelo escritor Equipo Plantel, por meio de uma coleção de quatro livros lançadas em Barcelona chamada “Livros para o Amanhã”, uma série que ensaiava as novas gerações daquela época para a construção de uma sociedade melhor pós ditadura ultra conservadora de Francisco Franco.

Mais de quarenta anos depois, a atualidade dessas questões demonstra que esse “amanhã” ainda não chegou, ou que talvez seja justamente, hoje? E o fato de serem tão necessárias de serem respondidas também aqui, no Brasil, demonstraria que os problemas do mundo prosseguem os mesmos, em toda parte?

Publicada originalmente pela editora espanhola La Gaya Ciencia, a coleção foi reeditada na Espanha pela editora Media Vaca e ganhou primorosa edição brasileira (com o nosso português!) pela Boitatá, selo editorial infanto-juvenil da Editora Boitempo, compondo os seguintes livros:

 

Não é de hoje que o Homo Literatus recomenda conteúdo artístico que reflita o empoderamento! Agora, vamos falar um pouco sobre esses quatro livros e como podem empoderar as crianças de hoje!

 

A democracia pode ser assim

Texto: Equipo Plantel. Ilustrações: Marta Pina

A primeira coisa curiosa nesse livro é o próprio título – e a sua comparação com o título do segundo volume da coleção. Texto e ilustrações (que são igualmente acessíveis) deixam bem claro que a democracia é um sistema em construção e que a ideia-chave é o convívio abundante das diferenças, que também são abundantes:

“A democracia é como um recreio
Em que todos podem brincar de tudo.

Explicar a Democracia como esse “recreio” onde todos podem brincar de qualquer coisa é absolutamente fantástico, porque o recreio assim é infinitamente mais divertido. A ideia, portanto, é demonstrar às crianças que a diversidade de brincadeiras, de pensamentos, de formas de brincar, de cores, etc., é o que simboliza a harmonia geral do sistema democrático. No entanto, esse recreio tem regras, justamente para que exista o respeito e não prepondere a violência:

 

E longe de mostrar a Democracia como um lugar no qual todos estão totalmente satisfeitos, o livro deixa claro que existem divergências de pensamentos sobre o próprio recreio e que nas eleições, embora todos votem, uns ganham e outros perdem. Assim, para você ser verdadeiramente democrata é preciso que saiba ganhar e perder e, sobretudo, que haja respeito por todos:

“Porque para ser democrata, é preciso ser tolerante, igualitário, justo.
É preciso saber ganhar e saber perder”

 

Este vídeo mostra um pouco do conteúdo da edição portuguesa, que é bem semelhante à brasileira só mudando a apresentação do texto – afinal, português do Brasil e português de Portugal são coisas bem diferentes, né?

 

‘A ditadura é assim’

Texto: Equipo Plantel. Ilustrações: Mikel Casal

Lembra que falamos que o título do primeiro volume é curioso quando comparado com o título do segundo? Chegou a hora de explicar: ao contrário da pluralidade da democracia, que lhe garante várias possibilidades de pensamentos, na ditadura existe apenas um regime autoritário, uma forma de pensamento imposta a todo mundo e uma coisa importante: o ego do ditador. Por isso que a ditadura não “pode ser assim”, ela “é assim”.

Com uma linguagem acessível e ilustrações igualmente belíssimas, o segundo livro procura destoar totalmente do ambiente do primeiro, para mostrar aos nossos pequenos como é uma ditadura. E, ao contrário do recreio, já começa mostrando que a ditadura é chata como um ditado.

“A ditadura é como um ditado: Alguém diz o que é para fazer, e todo mundo faz. Porque tem de ser assim e pronto”.

 

As ilustrações de Mikel Casal complementam o texto, que ensina as crianças a como se desvencilhar das armadilhas de linguagem e da propaganda do ditador:

 

E sobre o ditador, o livro ensina:

“Ele é apoiado por poucos…
E vai contra a vontade da maioria.
O ditador não tem amigos. Ele não gosta das pessoas (porque se julga o mais esperto, o mais importante e o mais bonito).
Mas alguns fingem que são seus amigos só por conveniência”

 

Como podemos ver, até os nossos pequenos conseguem aprender as muitas razões para se evitar uma ditadura, seja por eles serem o futuro ou seja por eles entenderem o presente, precisamos de crianças empoderadas hoje.

Este vídeo mostra um pouco mais do livro também em sua versão portuguesa.

‘O que são classes sociais?”

Texto: Equipo Plantel. Ilustrações: Joan Negrescolor

O terceiro volume da coleção apresenta as desigualdades de classes, um tema que continua agitando, inclusive violentamente, todo o mundo. Numa linguagem direta e objetiva com o apoio de ilustrações impecáveis, o texto ensina aos pequenos em poucas palavras a artificialidade das desigualdades:

“Todas as pessoas são iguais.
Mas existem coisas que as tornam desiguais: a força, o poder, o dinheiro e a cultura.
Porque, desde sempre, alguns grupos se aproveitam de outros, dominando-os pela força. E, à força, fizeram esses outros trabalhar, pensar e inventar para eles. Por isso uns são ricos e outros são pobres. Uns dominam, outros são dominados”

 

Você já conseguiu ser tão coeso e didático assim na explicação da razão das desigualdades em nossa sociedade? Em todo lugar, o livro nos ensina a enxergar as desigualdades, sobretudo, porque todos nascem iguais:

E em detrimento de todas as desigualdades, a mensagem que precisa prevalecer é aquela que pinta páginas belíssimas desse livro:

“O país é de todos
E todos temos os mesmos direitos
Porque todos os homens e mulheres são iguais!”

 

Este vídeo, mais uma vez, mostra vocês vários trechos com a edição portuguesa do livro.

‘As mulheres e os homens”

Texto: Equipo Plantel. Ilustrações: Luci Gutiérrez

O último volume da coleção original, reeditada agora com as novas ilustrações, não poderia deixar de ser fantástico. Esse título tem como objetivo ensinar nossos pequenos que mulheres e homens podem ser diferentes, mas não desiguais:

“Na verdade, as mulheres e os homens são iguais em quase tudo. A única coisa que têm de diferente é o sexo. (…) Mas é só isso: o sexo não faz de ninguém uma pessoa melhor ou pior.
Nem serve para saber mais, trabalhar mais ou ganhar mais dinheiro”.

 

Essas são muitas das questões que os pequenos enxergam os adultos enfrentarem. Por que as mulheres recebem menos que os homens? É justo que tenham de cuidar da casa, mesmo se também trabalharem fora? Por que as pessoas veem com estranheza um empregado doméstico que seja homem e não uma mulher ou um piloto de avião que seja mulher e não homem?

A mensagem que precisa ficar, no entanto, é ainda mais clara, porque precisamos de crianças empoderadas hoje!

“Mas nada disso é verdade. Nem os homens foram feitos para mandar, nem as mulheres para obedecer”.

 

Esse vídeo mostra pra você mais da edição portuguesa.

 

E qual é a minha opinião?

“As mulheres e os homens”, “O que são classes sociais?”, “A ditadura é assim” e “A democracia pode ser assim” são livros maravilhosos!

Embora de não-ficção, esses livros são igualmente imagéticos e esclarecedores às crianças, expondo de modo lúdico e não enfadonho, os temas sobre alguns problemas de nosso mundo ao longo de séculos, problemas esses que precisam ser resolvidos pra ontem!

Uma sugestão para a Editora Biotempo (responsável pelas edições brasileiras) é o prosseguimento da coleção, quem sabe com a inserção dos outros assuntos para o hoje (e o amanhã) que precisam ser pautados para as crianças, como aqueles sobre os preconceitos de cor e de sexualidade.

E você, leitor, o que acha?