Os 10 maiores calhamaços da literatura mundial (ou onde os fracos não têm vez)

A tarefa é árdua e pesada, e provavelmente falha, mas aqui vai uma lista dos dez maiores livros da literatura mundial.

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Se há algo que assusta um leitor, mesmo os mais experientes, é um livro grande, daqueles que pelo tamanho já se impõem, ou pura e simplesmente: calhamaço. Não é que não tenhamos curiosidade de saber com que o autor preencheu as várias e várias laudas para formar aquele tijolo de papel, mas o fato é, mesmo para os cowboys mais dados a labuta da leitura, que um livro com mais de quatrocentas (ou quem sabe quinhentas?) páginas é, no mínimo, desafiador. Ao término dele – e dos dias que seguiram a leitura – o misto de felicidade e de tristeza é inevitável: felicidade por ter passado pelo calhamaço e estar vivo; tristeza por ter passado pelo calhamaço e saber que acabou, que o mundo criado pelo autor não nos trará nada de novo, que estamos órfãos.

Para tanto, decidimos elencar os dez maiores calhamaços da literatura. A tarefa é árdua e pesada, e provavelmente falha, mas aqui vai uma lista dos dez maiores livros da literatura mundial.

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Guerra e Paz – Liev Tolstói

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É um livrão em todos os sentidos possíveis que o trocadilho pode alcançar. Com aproximadamente 1500 páginas e escrito em francês e russo, o livro em si impõe quase a total impossibilidade de resumo, tamanha é a obra e a extensão de seus temas. Podemos tentar resumi-lo em alguns pontos: narrativa sobre a invasão do exército francês de Napoleão ao Império Russo; o patriotismo russo da época pela grande Mãe Rússia; a vida e as intrigas da aristocracia russa; a vida dos pobres e desvalidos de quem Tolstói tanto admirava; a análise psicológica da alma humana   (valendo a citação das três principais personagens: Pedro Bezukhov, André Bolkonski, Natasha Rostova); um tratado sobre a guerra e o valor da paz… Mas como vemos, a lista de possibilidades desse grande épico russo sobre a invasão de Napoleão e o valor da alma humana são indescritível nas palavras de um pobre mortal.

O Tempo e o Vento – Érico Veríssimo

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Sabemos que O Tempo e o Vento não é um romance e sim um conjunto de três romances, verdade. Contudo ler O Continente, O Retrato ou O Arquipélago separado não vale tanto quanto o conjunto. Pelas quase três mil páginas desse romance de inspiração tolstoiniana, Érico Veríssimo cria e recria a história do Rio Grande do Sul e em parte do Brasil – bem como a da sua própria família. A narrativa acompanha a história dos Terra-Cambará durante duzentos anos, desde a sua origem até a desintegração em 1945. Como conjunto, talvez seja o romance mais completo da literatura brasileira. O Tempo e o Vento tem personagens inesquecíveis, tais como Ana Terra, Capitão Rodrigo, Fandango e o Dr. Rodrigo Terra-Cambará, além dos que normalmente são esquecidos pela História – os Caré, família tipificada por Érico na tentativa de mostrar os desvalidos da sociedade gaúcha que se formava. Do seu início na água furtada até a fim do grande clã de Santa Fé, Érico nos apresenta um épico sobre a formação do Rio Grande do Sul, da sua elite, do seu povo e dos seus erros.

Em Busca do Tempo Perdido – Marcel Proust

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Se uma vida cabe em páginas, esta é a de Proust – na clássica tradução de Editora Globo, na qual nomes como Manuel Bandeira, Drummond e Mário Quintana o traduziram, a vida de Proust mede 3938 páginas. Não há nada de épico nesse monumento literário que começa pelo simples fato do protagonista começar a rememorar a sua vida ao mergulhar uma Madeleine no chá (e isso já é lá pela página cinqüenta!). Tudo que temos é apenas a rememoração da vida de um francês um tanto afetado, asmático, dândi por natureza e freqüentador das altas esferas sociais da época. Entretanto não há como negar que apesar dos adjetivos maliciosos utilizados na frase anterior, Em Busca do Tempo Perdido é uma obra onde o autor escava a mais profunda das esferas humanas: as memórias. Enquanto o acompanhamos, passamos por salões cínicos, casos e mais casos – alguns são homossexuais, é claro – e a espera do beijo da mãe antes de dormir, entre outras tantas coisas. Nesse turbilhão sem fim que foi a vida do asmático Proust, vemos sua vida e sua obra nos fascinarem – e por que não, rememorar nossas próprias vidas?

2666 – Roberto Bolaño

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Que história esperar de um romance de quase novecentas páginas escrito por um autor que sabia estar lutando contra a morte? Os mais apressados poderiam esperar uma narrativa sobre a vida e a morte onde o autor discorreria sobre proximidade do fim e a efemeridade da vida, os cinéfilos poderiam esperar uma recriação da cena clássica de O Sétimo Selo de Bergman, os filósofos, bem deixemos os filósofos para lá. Bolaño nos dá um romance não com uma história, mas cinco, todas elas apontando para a cidade de Santa Teresa, na fronteira do México com os EUA, local de muitos assassinatos de mulheres. Não há enfadonhas digressões sobre o sentido da vida ou algo assemelhado, apenas um amalgama extremamente bem delineado onde encontramos de tudo: professores universitários em busca de um autor em meio a uma complicada relação entre eles, um professor universitário a beira da loucura com sua filha, um repórter negro do Harlem cobrindo uma luta de boxe a contragosto no México, assassinatos misteriosos e mais assassinatos misteriosos de mulheres numa cidade esquecida por Deus no México, um autor alemão durante a segunda guerra e que está prestes a ganhar o Nobel, mesmo se esconde de todos. Para aqueles que esperavam um mundo nas quase novecentas páginas de 2666, Bolaño não dá um mundo, mas o mundo.

A maior parte da Comédia Humana – Honoré de Balzac

Diz a lenda que o jovem Balzac, fatigado depois de atravessar a cidade a pé devido a pobreza, chegou a casa da irmã feliz da vida dizendo: “eu tenho o mundo na minha cabeça.” Ela, achando que o irmão havia enlouquecido de vez, perguntou-lhe o que era “a vida” e ele não respondeu. E o que poderia ter dito Balzac à irmã? Que via todas as engrenagens da sociedade francesa da época e que iria compor um conjunto de romances em que a dissecava minuciosamente? Se tivesse dito isso, com certeza teria ido para o espaço a Comédia Humana (afinal, quem não acharia Balzac maluco ao ouvir dizer isso?). Até Marx se rende a grandeza da Comédia Humana, dizendo que aprendeu mais sobre a sociedade burguesa da época lendo Balzac do que outra coisa. O problema é que para dar o efeito e a complexidade que queria, Balzac teve de fazer muitos romances, a maioria deles longuíssimos, tamanha era a complexidade do novo mundo que ele via fervilhar pelas rumas de Paris. Eugénie Grandet e O Pai Goriot, os dois primeiros respectivamente, fecham um pouco menos que mil e cem páginas. Isso sem contar outros grandes, e longuíssimos, romances como Mulher de Trinta Anos, entre outros. Se Balzac queria descrever toda a engrenagem da França que ele via, com seus aristocratas falindo, pensões baratas, espertalhões a galgar posição social e todo resto, não poderia ter escrito menos.

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Os Irmãos Karamazov – Fiodor Dostoievski

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Sinceramente, não sei se há muito mais a se dizer sobre essa monumental, por volta de mil páginas, e derradeira obra de Dostoievski. A história é mais velha que a própria história do mundo: o embate entre pai e filho. O pai, Fiodor Pavlovich, é um velho avarento sem nenhum amor a alguém que não seja ele próprio, dado a esquecer que tem filhos e barganhar a herança deles quando a reclamam. Dimitri Fiodorovitch, o mais velho dos três filhos, foi criado pelo mundo e é dado a arroubos e arrebatamentos tal qual o pai. Beberrão e imprevisível, Dimitri Fiodorovitch é o filho que bate de frente com o pai por causa da herança. Os outros dois irmãos Karamazov, Ivan e Alexei, são outros dois personagens extremamente complexos como tantos outros (o primeiro é um intelectual que odeia o pai abertamente e que sofre por isso; o segundo é o herói de toda a narrativa, pois se há alguma bondade por essa longa história, ela está em Alexei). Claro, como bom romance de Dostoievski, alguém morre e assim somos nós levados por mais de quinhentas páginas até encontrarmos o culpado, a seus motivos e tormentos. Também passamos pelo capítulo mais perverso da Literatura Mundial, o Grande Inquisidor, poema que Ivan Fiodorovitch narra ao irmão Alexei Fiodorovitch, no qual nada menos que Jesus Cristo volta e se depara com a Santa Inquisição em Sevilha.

Os Buddenbrooks – Thomas Mann

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Se Balzac precisou criar a Comédia Humana para mostrar a ascensão da burguesia na França, Thomas Mann precisou de apenas um breve romance de mil páginas para mostrar a decadência de uma família burguesa alemã – no caso, a dele próprio. No último canto do cisne do realismo, Mann em seu primeiro romance mostra como uma confortável e poderosa família vai declinando até, literalmente, desaparecer. Está tudo ali: partos, festas de casamento, mortes, funerais, as intrigas familiares daquela burguesia, os jogos de poder e tudo o resto. É claro, há o negócio da família, o irmão inconveniente, o irmã que só sabe errar na vida, o orgulho dos que perdem o lugar mas não a majestade. Em suma, temos o auge e o fim de um mundo e de seus personagens.

O Arco-íris da Gravidade – Thomas Pynchon

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Não há nada a se dizer sobre as quase oitocentas páginas desse romance. Não podemos falar nada sobre a linguagem dele, afinal, ele é o entremeio de Ulisses de Joyce e todos os romances malucos que vieram depois dele (talvez com uma única diferença em relação ao livro de Joyce: este é muito mais divertido). Que dizer de um livro narrado como um romance policial, no qual encontramos referências de filmes b, histórias em quadrinhos, muita música, magia e ocultismo, drogas (é claro), além de uma infinidade de coisas mais que fazem o leitor se perder dentro das várias entradas e saídas do texto, tal qual um filme de Quentin Tarantino? Podemos até falar da paranóia que cerca o romance, ponto-chave para se entender e se divertir em qualquer romance de Thomas Pynchon, mas aí seria demais. Podemos apenas afirmar duas coisas sobre O Arco-íris da Gravidade: primeiro, é um romance que se passa durante a Segunda Guerra Mundial; segundo, é um grande romance.

Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa

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Nenhum romance brasileiro foi forte o suficiente para criar uma vertente própria e original como Grande Sertão: Veredas. Dentre os nomes que tentaram fazer algo semelhante a Guimarães Rosa estão João Ubaldo Ribeiro (Sargento Getúlio), Ariano Suassuna (Romance d’A Pedra do Reino), Mário Palmério (Chapadão do Bugre) e Benito Barreto (com a tetralogia Os Guaianãs). As fontes nas quais esse romance bebe são tantas e variadas que resumir Riobaldo em um ex-jagunço que conta sua história de vida é diminuí-lo. Por essas seiscentas e tantas páginas de aventuras e desventuras, vemos de tudo: jagunços em ação, um homem que era mulher (e cá temos talvez a melhor parte de todas, um quase romance homossexual em pleno 1956!), um pacto com o diabo ou quase isso. Atravessamos o sertão e o tempo com Riobaldo, chegando a modernidade e a um tempo que desaparecia junto com as convicções do narrador de que o diabo existia. Que mais dizer? A existência nos vem com tudo depois de toda essa travessia.

A Bíblia

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Eu sei, a Bíblia não é para ser um lida como um romance ou algo do tipo. Contudo não há como negar que um livro que começa com “No princípio ele criou o céu e a Terra” merece um pouco de respeito – pelo menos como narrativa. Não há quase nada de novo nas narrativas que vieram após o Velho Testamento que não estivesse já lá (e que também não estivesse na Epopéia de Gilgamesh, mas adaptação e plágios são a essência da Literatura como diz Linda Hutcheon). Há traição, vingança, sangue (muito sangue, muito mais que nos filmes do Tarantino), redenção etc. É uma rica trama de pequenas histórias a se interligarem, levando a apoteose, literalmente falando, do Apocalipse. Temos serpentes que falam e adoram uma intriga, mares que se abrem e se fecham com o bater de um cajado, chuvas de meteoros (e nem saímos ainda do Velho Testamento). Também sei que o Novo Testamento é um tanto enfadonho depois de tudo que foi visto na parte anterior, pois focar toda a trama numa única personagem – que hoje seria considerado um hippie comunista por muitos por ter cabelo e barba, além de ideais de dividir o que se tem com o próximo – e em seus pensamentos (dá quase para dizer que os quatro Evangelhos canônicos são o germe da técnica faulkneriana de narrar um mesmo fato de vários pontos de vista). Diga-se o que se fizer, a Bíblia está lá desde o começo com suas histórias; sabe-se lá se ela estará conosco lá pelo fim.

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Anexo

Fazer uma lista como essa é uma tarefa em que se sabe que se vai deixar algo de fora. Se alguém perguntar por que isso está e aquilo não, eu poderia dizer que foi por tal e qual argumento e não admitir, como reles ser humano, que as escolhas foram por guiadas pelo pior dos males humanos: o gosto pessoal.

Então, para tentar não ser tão injusto com o que ficou de fora, vai lá uma breve lista de outros calhamaços interessantes & cia.

Mar da Fertilidade – Yukio Mishima

É tido como o Em Busca de Tempo Perdido oriental por muitos. Uma tetralogia que vai do Império Japonês em 1910 até após a Segunda Guerra Mundial. É uma narrativa que descreve um amor impossível e questiona e compreende as possibilidades da morte.

Ulisses – James Joyce

Segundo Borges, é o livro mais citado e menos lido. Narra um dia na vida de Stephen Dedalus e Leopold Bloom, enquanto faz o paralelo da vida de ambos com a Odisséia de Homero. Joyce lança mão dos mais variadas ferramentas textuais para compor esse romance, dentre eles criar um capítulo inteiro que se passa em um jornal.

Os Thibault – Roger Martin du Gard

Praticamente desconhecido no Brasil, esse conjunto de oito romances rendeu ao seu autor o Nobel de 1937. Seu foco é a trajetória da família que dá título à obra, indo do início do século até o fim da Segunda Guerra Mundial. Dizem as más línguas que Érico Veríssimo compilou vários personagens para o seu O Tempo e o Vento.

Os Maias – Eça de Queiroz

O maior e mais complexo dos romances portugueses do século XIX, Os Maias é Eça no seu melhor – mostrando o pior da sociedade portuguesa e da alma humana. Intrigas e problemas não faltam nessas quase mil páginas. Chega a soar estranho, ao leitor mais desavisado, que o autor é o mesmo de sonso O Primo Basílio.

On The Road – Jack Kerouac

Só se explica On The Road a quem já o leu. Um épico moderno americano como queria o seu autor, o romance mostra a saga de Sal Paradise a atravessar os EUA por cinco vezes. Entramos em caminhões de carona, colhemos laranjas na Califórnia, conhecemos puteiros no México. Como eu disse, só se explica On The Road para quem o leu.

Crime e Castigo – Fiodor Dostoievski

Bem como a maioria dos romances de Dostoievski, ele é longo, tem um assassinato e a trama gira em torno disso. O que, então, ainda fascina tanto as pessoas ao seguir a vida do estudante Raskolnikov em São Petersburgo? Talvez seja a análise da psique humana, que nos mostra que Raskolnikov está um pouquinho dentro de nós.

Os Miseráveis – Victor Hugo

Não há nada que descreve melhor o que significa toda a trajetória de Os Miseráveis que a imagem criada por Émile Bayard para Cosette. Uma pobre e órfã criança a varrer o chão de pés descalços. Uma epopéia de injustiças com os pobres, onde Victor Hugo nos apresenta o inflexível Javert em busca de Jean Valjean e do seu pequeno delito.

O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta – Ariano Suassuna

Se acharam o título longo, não sabem o que lhes espera nessas setecentas e tantas páginas de uma história baseada no auto-proclamado “Rei do Quinto Império e do Naipe, Profeta da Igreja Católica-Sertaneja e pretendente ao trono do Império do Brasil”. O primeiro de uma trilogia que não saiu do primeiro romance, A Pedra do Reino é Suassuna em suas melhores páginas a transportar todo o sertão nordestino e seu mundo para um romance divertidíssimo.

Anna Karenina – Liev Tolstói

Os píncaros de moralismo de Tolstói atingem as alturas nesse romance em que se investigam os mais variados assuntos, mas nenhum deles com tanta ferocidade como um: a felicidade. Anna Karenina é uma mulher que tem tudo – é bela, amada e rica -, contudo não é feliz. Tudo muda quando ela conhece um oficial russo, o Conde Vronski, com o qual começa um tórrido caso amoroso.

O Vermelho e o Negro – Sthendal

Julien Sorel é um Napoleão galgando lugar seu lugar ao sol em meio à sociedade francesa da época. Filho de carpinteiros, ele era tutor das crianças de um nobre local e estava indo em direção ao celibato quando sua história muda completamente. Tendo Bonaparte em mente, ele galga posições sociais até se tornar secretário do Marquês de La Mole. Tudo vai bem na vida de Sorel até uma amante deixada para trás aparecer e mudar seu destino. Um tanto quanto melodramático, O Vermelho e o Negro é Sthendal dessecando a psicologia humana e a História da França de modo fascinante.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)