Outros jeitos de usar a boca e de fazer poemas

outros jeitos de usar a boca, livro de poemas da Rupi Kaur, já causou muitas polêmicas, tanto pelas temáticas abordadas quanto pelos memes literários gerados
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Rupi Kaur, poeta indiana

Você já deve ter ouvido falar do livro outros jeitos de usar a boca, da jovem escritora Kupi Kaur. O título chama a atenção. A obra esteve em 1º lugar na lista dos mais vendidos do The New York Times. Os poemas causaram polêmicas nas redes sociais. E, portanto, como bons brasileiros que somos, as polêmicas acabaram gerando memes. Mas, afinal, o que deu origem a tudo isso? Falemos de alguns pontos.

 

Quem é Rupi Kaur?

A autora nasceu em Punjab, na Índia, em 1992. Atualmente, vive em Toronto, no Canadá. Como forma de se expressar, Kaur desenha desde os 5 anos e, com o tempo, passou também a escrever. No entanto, somente a partir dos 17 anos que passou a se dedicar com mais afinco à escrita. Seu primeiro livro publicado foi em milk and honey, que foi editado no Brasil e intitulado: outros jeitos de usar a boca. Outro livro da poeta foi publicado no país recentemente, chama-se o que o sol faz com as flores.

Por fim e não menos importante, a poeta se declara feminista. Devido a isso, muitos de seus poemas costumam abordar temas relacionados às mulheres, sobretudo seus relacionamentos amorosos, o machismo vivenciado diariamente, a violência e abuso sexual.

 

Os poemas de outros jeitos de usar a boca

Não é segredo que o livro de poemas da Rupi causou e ainda tem causado muitas discussões, seja em rodas de conversas ou nas redes sociais. Talvez seja esse um dos motivos para que o livro venda tão bem, a discussão atrai leitores.

Muitos apontam que os poemas na verdade não são poemas. Que os poemas não são literatura. Que o livro é ruim, panfletário e tem como objetivo apenas “lacrar”. Concordo que o livro não é bom, eu salvaria apenas uns poucos poemas, mas também aponto que ele tem sua importância enquanto temáticas apresentadas.

Quantos livros de poemas, que você conhece, falam sobre temas como violência contra a mulher, abusos sexuais, traumas e tentativa de sobrevivência em um mundo quase que completamente machista e patriarcalista? São poucos. É difícil assumir as dores, os traumas, as perdas que nós, mulheres, sofremos todos os dias. Por isso defendo que, enquanto temática, o livro surpreende.

 

Mas

… poema não é só tema. É trabalho com a linguagem, é estrutura. Deve haver um equilíbrio entre tema e forma. O poema é linguagem, é ritmo, é verso e é imagem. O poema não deve ser somente tema.  Também não pode ser somente forma literária. É preciso haver, portanto, um elo ou um ponto de encontro entre conteúdo/ser humano/sociedade e linguagem/discurso/forma. É preciso haver um estilo poético que seja capaz de distinguir o poema de um tratado político, de uma lista de dicas de autoajuda, de uma notícia de jornal, de conselhos amorosos.

Há pouco ou quase nenhum trabalho de linguagem nos poemas de Rupi Kaur. Alguns poemas beiram a linha da autoajuda: você precisa isso, você tem de fazer aquilo, você pode isso, você deve… Outros beiram relatos de situações caóticas cotidianas.

Talvez, na obra original, seja mais visível um trabalho com linguagem e forma poética. Às vezes, essas questões podem se perder em uma tradução. E esse não é, necessariamente, um defeito de tradução. Traduzir poemas é algo tão dificultoso quanto tornar-se rico quando você vem de família pobre.

 

O livro é relevante no cenário literário?

A resposta é sim. É preciso reconhecer que Rupi Kaur, em outros jeitos de usar a boca, é corajosa ao abordar temas que ainda são tabus, seja na Índia, no Canadá ou no Brasil. É preciso força e coragem para falar sobre violência contra mulher (em todas as idades), em qualquer situação, não apenas em obras de arte. É sobretudo doloroso falar de nossos traumas, nossos embates, nossas dores, nossas tentativas de esquecimento e cura.

outros jeitos de usar a boca (Planeta, 2017)
outros jeitos de usar a boca (Planeta, 2017)

É preciso lembrar ainda que Rupi é uma poeta, ou seja, é uma mulher. Além disso, é uma mulher muito jovem. Infelizmente, ainda hoje são poucas as mulheres que têm acesso ao meio editorial e que vendem tantas obras, assim como a escritora vendeu.

Infelizmente, a obra deixa a desejar, e muito, em relação ao trabalho com a linguagem e à criação verbal poética.  Cada palavra em um poema precisa ser única, precisa ser transfigurada pelo(a) poeta. O poema não pode, desse modo, ser um reflexo mecânico da linguagem cotidiana.

Por fim, para não dizer que as ilustrações do livro não foram mencionadas, ressalto que são feitas pela própria poeta. São singelas, delicadas, expressivas e, por vezes, dolorosamente verdadeiras.

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestra em Letras - Estudos Literários (PLE-UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela