‘Quissama 2 – Território Inimigo’ e a Guerra do Paraguai

Em Quissama 2, o escritor Maicon Tenfen desenvolve uma trama na qual é exposta a complicada guerra brasileira contra o Paraguai

Quissama 2 - Território inimigo
Lombada e capa de Quissama 2, intitulado Território Inimigo

E voltamos a acompanhar as aventuras de Vitorino Quissama conforme o ponto de vista de Daniel Woodruff, dessa vez nos campos de batalha do Paraguai, para onde a dupla se deslocou ao seguir a única pista disponível de Bernardina. Além de entendermos por que a mãe do moleque, uma escrava foragida, foi buscar refúgio no meio de um dos confrontos militares mais sangrentos do século XIX, avançamos pela história da família Quissama em Território Inimigo, um segmento das memórias de Woodruff que trata especificamente do que ele presenciou na fase final da Guerra do Paraguai, especialmente os lances decisivos de 1869, desde a Tomada de Assunção em janeiro até a Batalha de Campo Grande em agosto.

É possível dizer que Woodruff e Vitorino, cada qual à sua maneira, participaram de alguns dos episódios mais lastimáveis da campanha. Nesse período, as tropas paraguaias já estavam dizimadas e a guerra subitamente se transformou num massacre. Não por acaso, o Dia das Crianças no Paraguai é comemorado em 16 de agosto, data da Batalha de Campo Grande — ou Acosta-Ñu em guarani — ocasião em que 20 mil soldados brasileiros e argentinos chacinaram grande parte dos 6 mil pré-adolescentes paraguaios que fizeram frente aos invasores. Enquanto Vitorino, recrutado à força, participou da batalha como soldado, Woodruff teve um olhar mais externo dos acontecimentos.

Essa, aliás, é a principal diferença narrativa em relação a O Império dos Capoeiras, primeiro volume da saga Quissama. A partir de um determinado ponto, Woodruff e Vitorino seguem caminhos distintos. Se presenciamos com o inglês o sofrimento que a guerra impôs à população civil do Paraguai (principalmente mulheres e crianças), é através do moleque que sentimos as agruras dos negros, escravizados ou não, obrigados a se engajar no exército brasileiro. O mais curioso é que a rixa entre Nagoas e Guaiamuns prossegue incontrolável sob as barbas dos comandantes, e esse será um problema a mais para Vitorino, que desgraçadamente cai nas garras do sádico e vingativo Tenente Barreto.

Quanto a Woodruff, misto de andarilho e etnógrafo amador, o seu entendimento sobre o Brasil se amplia com a observação dos acampamentos militares, pois é neles que pode “ter uma ideia mais completa da variedade humana que se dissolvia sob o gentílico ‘brasileiro’”. Não deixa de ser intrigante o comentário que faz na sequência, depois de lembrar como o nosso país é jovem: “se havia um momento em que as diferenças de cor e classe social eram esquecidas, isso acontecia nas horas mais encarniçadas da batalha”. Woodruff sugere que a causa comum da guerra seria benéfica ao ideal democrático, ou foi apenas a cordialidade dos brasileiros que o inglês quis ver?

Nesse sentido, vale a pena mencionar um dos personagens mais marcantes da obra, o Capitão Edmundo Monteiro Salvador de Medina Cavalcante, poeta e abolicionista, que profetiza o fim da escravidão como um passaporte dourado para a prosperidade igualitária do Brasil. Se Território Inimigo fosse uma obra de ficção, poderíamos dizer que o autor se valeu de demasiada ironia ao colocar o profeta numa mesa de amputação, mas, como se trata da simples tradução das memórias de Daniel Woodruff, parece que o próprio destino agiu com crueldade, além dos colegas do militar, que zombavam do seu nome aristocrático, chamando-o pelas costas de Capitão Sujismundo Porqueiro Bebedor de Urina de Elefante.

Outra dezena de personagens memoráveis dá cores ao romance, alguns já conhecidos d’O Império dos Capoeiras, como Tenório, Nocêncio e Tiúba, outros inteiramente novos na trajetória de Vitorino, caso do portenho Esteban e do benfeitor Alphonse, e ainda outros que entrariam para os livros de História, como o poliglota britânico Richard Burton (um dos ídolos da juventude de Woodruff), o escritor brasileiro Alfredo d’Escragnolle Taunay, autor do clássico Inocência, que ficaria conhecido apenas como Visconde de Taunay, a sempre polêmica Madame Lynch e o próprio Solano López em sua versão mais enigmática. E, claro, o General Osório, o mais mitológico dos soldados brasileiros, sem o qual não se pode falar da Guerra do Paraguai.

Apesar do fascínio que a movimentação das tropas exerce sobre o narrador, o texto de Woodruff está mais interessado nos dramas humanos e no inusitado de sua própria história, a começar pela jornada que empreende para levar os órfãos Juan e Maria até a casa da avó na região de Peribebuí. Toda a ajuda será necessária, inclusive a mística, e essa é outra surpresa na vida do inglês, que lentamente se aproxima de entidades como Ogum e Obaluaiê. Muito mais do que no primeiro volume, quando relata sua chegada ao Brasil, as “religiões dos escravos” chamam a atenção de Woodruff. Aos poucos ele vai entendendo a luz de Xangô sobre Quissama, que ao mesmo tempo se protege com uma medalhinha de Santa Rita.

A Guerra do Paraguai passou por inúmeras interpretações. Do mesmo modo que foi usada para enaltecer o exército brasileiro, serviu de álibi para denegrir a imagem das forças armadas e assim criticar os militares que ocuparam o poder no período 1964-85. Só mais recentemente é que os historiadores, apoiados por documentação inédita, chegaram a conclusões mais balanceadas sobre a performance do Brasil na guerra. É certo que a leitura de uma narrativa direta como Território Inimigo, que enfoca os acontecimentos a partir de suas vítimas, incluindo os soldados, fará com que os leitores tenham uma visão mais humana, e infelizmente mais trágica, de um dos episódios mais controversos da nossa História.

Darlan Jevaer Schmitt Author

Historiador e professor. Mestre em História pela UDESC. Servidor técnico-administrativo da FURB desde 2000 e diretor da Biblioteca Universitária entre 2011 e 2017.