Vale a pena ser bom? O Idiota, de Dostoiévski, nos dá a sua resposta

O que Dostoievski e seu O idiota podem nos ensinar sobre ética e ser uma boa pessoa?

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Falar de valores nobres no Brasil anda difícil. Em tempos de Operação Lava Jato e outras investigações vindas a reboque, a impressão que dá é que vivemos rodeados de pessoas cínicas, desonestas, com pouca ou nenhuma preocupação com o outro. Para que andar pelo caminho da retidão quando é tão fácil se corromper? Para que se importar com quem sofre se é possível viver de forma confortável? Pois Dostoievski nos faz pensar sobre essas (e muitas outras!) questões em O Idiota.

A narrativa gira em torno do príncipe Míchkin, um homem criado longe da Rússia devido a graves crises de epilepsia. Após longa internação na Suíça, esse jovem de vinte e sete anos decide se reinserir na sua sociedade natal, sem que tenha a menor ideia do que o aguarda. Sincero, bondoso e complacente, o príncipe é atirado com rapidez surpreendente em situações sobre as quais pouco entende e nas quais as suas elevadas qualidades mais causam tumulto do que solução.

É o que acontece na festa da bela Nastácia Fillípovna, já na primeira parte da narrativa. Essa mulher, que merece estudos por si só, é um dos grandes exemplos da sensibilidade do autor para com a alma humana. Criada por Tótski para ser sua amante, Nastácia desenvolve uma personalidade voluntariosa e irascível, a ponto de seguir seu abusador até São Petesburgo e instalar-se lá para infundir-lhe pavor. Na sociedade, é vista como louca e excêntrica, porém vamos percebendo, ao longo do romance, que suas ações impulsivas e radicais são apenas resultado de uma autoestima dilacerada, um grito surdo de ódio de uma mulher que se considera indigna perante as outras, culpada de ser quem é. Esse retrato profundo e pouco óbvio de uma jovem do século XIX nos é dado através dos olhos do príncipe Míchkin, que enxerga uma dimensão de Nastácia Fillípovna que ninguém mais vê. Em conversa franca com Aglaia, a moça de boa família por quem ele nutre grande ternura, afirma:

“Aqui não há nada demais que você não possa ouvir. Por que precisamente a você eu queria contar tudo isso, só a você, só a você, eu não sei; talvez porque eu realmente a amasse muito. Aquela mulher infeliz está profundamente convencida de que é o ser mais decaído, o ser mais depravado de todos na face da terra. Oh, não a difame, não atire pedra. Ela já se martirizou demais com a consciência de sua desonra imerecida! E que culpa ela tem, meu Deus? Oh, a todo instante ela grita, tomada de fúria, que não reconhece a sua culpa, que é uma vítima das pessoas, vítima de um depravado e canalha; entretanto, seja lá o que ela lhe diga, fique sabendo que ela é a primeira a não acreditar em si mesma e, de plena consciência, acredita, ao contrário, que ela… que ela mesma é culpada.” (p. 485-486)

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Tal é o impacto que Nastácia Fillípovna lhe causa, tal a dor que vê em seu rosto desde o primeiro encontro entre eles, naquela festa histérica, que o príncipe termina por lhe propor algo absolutamente inesperado, que mais tarde perceberemos ser um gesto de extrema piedade.

O primeiro de muitos, na verdade. Em diversas passagens da história, a compaixão do príncipe espanta o leitor, como quando ele escuta com paciência inacreditável as mentiras do velho general Ívolguin, que jura ter sido pajem de Napoleão; ou quando é acusado por um grupo de jovens liderado pelo moribundo Hippolit de dever metade de sua fortuna a um filho ilegítimo de seu protetor. Essa segunda história, aliás, acaba sendo desmascarada, mas apesar da empáfia e má fé dos jovens, Míchkin chega a oferecer parte do dinheiro para o falso herdeiro, de forma a não humilhá-lo demasiadamente em frente a seus pares. Trata-se de ação, sem dúvida, que somente uma pessoa de caráter quase extraterreno teria, imbuída de um senso de justiça para além do razoável. Não à toa as referências para a construção do protagonista da obra foram duas figuras cujo idealismo e retidão ultrapassam todos os limites do homem comum: Dom Quixote e Jesus Cristo.

Como se pode imaginar, porém, a bondade do príncipe passa longe de ser bem compreendida pelas pessoas que o cercam. Por onde ele circula há um certo desconcerto com suas palavras e atitudes, que nunca deixam de causar impacto. Munido de uma sinceridade humilde, Míchkin confronta as pessoas com seus próprios defeitos e ações pouco nobres, fazendo-as refletir sobre quem são. Uma das personagens mais afetadas por esses momentos é Gánia, um jovem ordinário e ambicioso que se empenha em fazer a corte a Nastácia Fillípovna. No trecho abaixo, quando confrontado pelo príncipe a respeito de sua índole medíocre e de seu interesse unicamente pecuniário pela moça, percebe-se que Gánia sente um genuíno incômodo, sensação que permanecerá com ele e o impedirá de tomar uma atitude bastante rasteira num futuro capítulo:

“Os patifes gostam de pessoas honestas, o senhor não sabia? Mas eu… Pensando bem, em quê eu sou patife, pode me dizer conscientemente? Por que eles todos a seguem me chamando de patife? E sabe, depois deles e dela eu mesmo me chamo de patife! Pois bem, o que é abjeto é abjeto!

– Agora eu nunca mais vou considerá-lo um patife – disse o príncipe – ainda há pouco eu já o considerava totalmente um malfeitor, e de repente o senhor me alegrou muito – eis uma lição: não julgue se não tem experiência. Agora eu vejo que não se pode considerá-lo não só um malfeitor como também um homem demasiadamente estragado. Para mim o senhor é apenas uma pessoa das mais comuns que pode existir, apenas muito fraca e nem um pouco original.

Gánia deu consigo um risinho cáustico mas ficou calado. O príncipe notou que a sua opinião não o havia agradado, ficou confuso e também calou-se.” (p.155)

O grande problema do príncipe é que a sua doação ao outro muitas vezes ultrapassa a linha do possível, fazendo com que a sua própria vida pareça não ter a menor importância. A relação que estabelece com Rogójin, o amante obsessivo de Nastácia Fillípovna, por exemplo, beira as raias da loucura, já que Míchkin o procura inúmeras vezes e chega a chamá-lo de irmão, mesmo que aquele o considere um rival e transforme-se numa grande ameaça. Em mais de uma ocasião o príncipe expõe-se de maneira perigosa a esse homem imprevisível, e o faz na melhor das intenções, a fim de tentar salvá-lo de seus impulsos destrutivos. Poucos chegariam a esse ponto, de teor insano. Afinal, qual é o limite da bondade? Vale a pena arriscar tudo pelo resgate do próximo?

Sem revelar muito sobre o final da obra, podemos indicar que Dostoiévski nos encaminha para essa resposta. O próprio título do livro já nos dá pistas – pois um homem com tamanha nobreza de caráter é reconhecido pela sociedade ao seu redor como um ser superior ou um simples idiota? Esses questionamentos, em meio a muitos outros, são o que fazem desse livro uma joia da literatura mundial. Poucos nos dirão mais verdades sobre a nossa natureza humana do que o príncipe Míchkin e seu notável criador.

Trechos extraídos de: DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Idiota. São Paulo: Ed. 34, 2002.

Carolina Prospero Autor

Professora de Literatura e Redação. Formada em Letras pela Unicamp, fez lá também o seu mestrado, no qual trabalhou com a obra da musa-mor Clarice Lispector. Escreve de vez em quando, muito menos do que gostaria. Adora livros, séries e o seu gato Dante.