A voz das mulheres em ‘A guerra não tem rosto de mulher’

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Em A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch, a história da Segunda Guerra Mundial é contada por mulheres combatentes que durante décadas foram silenciadas

Svetlana Aleksiévitch

No livro A guerra não tem rosto de mulher, da ucraniana Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, a história da Segunda Guerra Mundial é narrada não pelos feitos heroicos de um general, ou por um soldado que se arrisca para salvar um companheiro ferido, como representado inúmeras vezes ou filmado por Hollywood. A guerra é contada a partir da fala de combatentes mulheres que durante décadas foram silenciadas, ou pelos seus maridos, ou pelo próprio Estado soviético, por meio de uma história que começa a ser recontada.

Na história das civilizações que pululam nos manuais escolares, as guerras são conteúdos indispensáveis para se entender o surgimento das primeiras cidades, a formação dos Estados nacionais, as ordens econômicas e até o avanço das religiões monoteístas (cristianismo e islamismo). Essa mesma história é quase sempre caracterizada como um feito masculino, porque o homem, por meio das batalhas, expressa melhor sua essência aguerrida, desbravadora e construtora.

Quase nunca as mulheres são retratadas nesses contextos. Digo “quase nunca” porque aqui ou acolá são mencionadas figuras como Joana D’Arc, Anita Garibaldi, ou as histórias míticas das amazonas, mulheres guerreiras; são as folhas de parreira a cobrir nossa vergonha machista.

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Pois bem, no livro de Svetlana, traduzido do russo para a Companhia das Letras em 2016, essa história ganha diferentes matizes. Escrita em forma de relatos, bem ao estilo jornalístico da autora, que durante décadas coletou depoimentos de soldadas da Segunda Guerra. No início das entrevistas, conta ela, havia muitas resistências, muitas soldadas não queriam lembrar daquela época, não apenas dos horrores daquele período, mas, as que se encontravam casadas, receavam falar por um acordo interno com seus maridos. Há depoimentos que começam com o homem falando, quase nunca deixando sua esposa falar. Relembrar aquele período era se encher de dor, não só da lembrança ainda viva como também do preconceito ainda reinante.

Os entraves nas falas ocorriam por conta das imagens que se construíram sobre as ex-soldadas soviéticas que se alistaram espontaneamente para a guerra, de que exerceriam papeis de amantes dos soldados. Há depoimentos que contam da dificuldade que encontraram com o pós-guerra em casarem. Muitas ainda relatam que casaram com soldados que conheceram no front e tantas outras ficaram sozinhas.

A guerra não tem rosto de mulher (Companhia das Letras, 2016)

No início, quando as recrutas chegavam aos batalhões para se apresentarem ao comandante em exercício, eram quase sempre ridicularizadas. Quando aceitas, eram escaladas para as enfermarias, lavanderias ou cozinhas, mesmo aquelas que não demonstravam nenhum dote doméstico. Elas pelejaram para serem aceitas no front, manejando armas, tanques de guerra e explosivos.

Com o tão sonhado fim da guerra, outra batalha começava a se armar para essas valentes mulheres: o reconhecimento não veio. As condecorações eram, em grande maioria, pelos serviços prestados, aqueles que melhor traduzem a essência feminina: lavar, passar, cozinhar e cuidar. O Estado as reverenciava com o silêncio sobre seus grandes feitos, sobre os feitos de mais de 1 milhão de mulheres que arriscaram suas vidas, sacrificando seus futuros, posto que o alistamento se deu quando jovens em idade escolar e a elas não foi oferecida a oportunidade de seguirem carreira militar, como aos homens. O silêncio sobre as histórias das mulheres – eis uma batalha que não poderá ser negada, se almejamos a escrita de uma história de paz.