As conflituosas relações entre Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz

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Entenda as relações conflituosas existentes entre Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz, dois dos maiores escritores portugueses do século XIX

Camilo Castelo Branco, a cabeça satírica do Romantismo

Estudar literatura é uma via de mão dupla. Ao mesmo tempo em que coloca ao aluno uma série de autores de sua própria língua a que ele, de outra forma, talvez jamais seria apresentado, acaba também impondo um encaixotamento desses autores para que fiquem mais digeríveis num processo escolarizado. Daí associarmos imediatamente o autor X com a estética Y, muitas vezes à revelia do próprio, e fazendo um esforço enorme para lidar com as suas “escapulidas” depois. Ou então falarmos do sujeito como um ser estanque no tempo e espaço, como se não tivesse relações com todo um cenário e toda uma gama de outros autores, que possam tê-lo influenciado ou irritado, aberto ou fechado portas, sido mentores ou índices a serem superados. É a partir desses questionamentos que devem ser entendidas as relações entre dois gigantes de estéticas tão diversas quanto o Romantismo e o Realismo: estamos tratando aqui de Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz.

Curiosamente, a situação familiar de ambos, embora separados no tempo por vinte anos, é semelhante. Camilo nasce no ano de 1825, filho de um aristocrata de província chamado Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, filha de pescadores. O fato é que Manuel levou vida errática e desonesta, tendo sido preso por fraude e tido diversas amantes, sendo Jacinta uma delas. Por pressão familiar, que não queria o nome Castelo Branco sendo associado a uma moça tão humilde, Manuel registra o filho como de “mãe incógnita”. Jacinta acaba morrendo apenas um ano depois do nascimento de Camilo, e o pai falece quando o menino completa dez, deixando nele, segundo suas palavras, “um caráter de eterna insatisfação com a vida”.

Caso similar é o que envolve o nascimento de Eça, embora com toques um pouco mais amargos. Nascido no ano de 1945, era filho de José Maria de Almeida de Teixeira de Queiroz, um magistrado, e de D. Carolina Augusta Pereira d’Eça, vinda de uma linhagem de militares de alta patente. Devido ao inconformismo pela gravidez ilegítima da jovem, o registro de Eça é feito contendo a mesma expressão do de Camilo, “mãe incógnita”, dessa vez para proteger a reputação de D. Carolina. No entanto, a criação do menino fora encarregada a diversas instâncias satélites da família – primeiro a uma ama, depois aos avós paternos, depois ao colégio interno da Lapa – sendo o garoto reunido aos pais definitivamente apenas aos dezesseis anos. Chama a atenção, porém, que os pais tenham decidido se casar quando Eça tinha quatro anos de idade, e tenham tido ainda outros quatro filhos após essa data, todos criados dentro do núcleo familiar. Imagina-se, portanto, que esse abandono parental tenha lhe deixado marcas profundas na alma, sendo inclusive associado por muitos ao seu caráter contestador e irônico. Atribui-se maior rejeição vinda da mãe, D. Carolina, considerada uma mulher autoritária e que recusava o casamento, sentindo-se traumatizada pelo resultado de seu caso amoroso. O pai, Teixeira de Queiroz, parece ter sido um pouco mais acolhedor, principalmente a partir da juventude de Eça, quando fica claro o talento do moço para a literatura.

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Os caminhos dos dois autores começam a se cruzar a partir de um escândalo associado a Camilo Castelo Branco. Jovem irrequieto, aos vinte e um anos já havia abandonado duas companheiras, sendo apenas a primeira legítima. Viveu uma vida boêmia, repleta de paixões, até que se vê obcecado por Ana Plácido, noiva do negociante Manuel Pinheiro Alves. Revoltado com o casamento da moça, passa um ano no seminário tentando esquecê-la; no entanto, logo percebe que sua personalidade não era talhada para a vida religiosa e muda então de tática, decidindo seduzi-la. Depois de anos de um caso extraconjugal, fogem juntos, embora tenham sido rapidamente capturados pela polícia e acusados – ele, de rapto, e ela, de infidelidade. O caso causou comoção na opinião pública, já que simbolizava o clássico amor romântico, impedido pelas circunstâncias sociais. O interessante é que o juiz encarregado do julgamento de Camilo e Ana não era ninguém menos do que o dr. Teixeira de Queiroz, pai de Eça! O magistrado analisa o caso e, a princípio, não indicia Camilo, pela ausência de provas flagrantes. O juiz acaba sendo movido para outro posto alguns dias antes do julgamento do escritor, porém visita-o na cadeia e lhe dá alguns conselhos jurídicos, pelos quais Camilo seria eternamente grato. No julgamento, o acusado acaba absolvido e, por tabela, também Ana Plácido. O casal viverá junto até a morte dele, trinta anos depois.

A partir de tal evento, Camilo passa a ser parte das relações sociais de Teixeira de Queiroz, sendo sabido que frequentou sua casa ocasionalmente, quando este habitava em Póvoa de Varzim. Camilo o respeitava muito, referindo-se a ele em cartas como “o boníssimo Queiroz”, “O nosso honrado Queiroz” e até mesmo, exageradamente, como “ouro de 24 quilates sem jaça”. Seria possível que o jovem Eça tenha conhecido o autor na juventude, na ocasião de alguma dessas visitas, apesar de sua presença bastante pontual na casa paterna? Ou quem sabe nos períodos de veraneio, em que o Eça estudante do colégio da Lapa passava no Porto, em casa da tia Carlota? Decerto, nenhuma dessas considerações pode ser descartada, principalmente levando em conta os registros diversos da passagem de Camilo pelas mesmas localidades.

Eça de Queiroz

O que se sabe é que o envolvimento de Eça na chamada “Questão Coimbrã” não é aquele se esperaria do futuro grande representante da nova estética em Portugal. A mencionada questão resume-se na disputa entre duas vertentes literárias portuguesas: o Romantismo e o Realismo. No posfácio ao Poema da Mocidade, do escritor Pinheiro Chagas, o já consagrado autor romântico Antônio Feliciano de Castilho elabora uma defesa da literatura romântica, acusando os ruidosos jovens estudantes de Coimbra do período de uma falta de “bom senso e bom gosto”, já que estes se preocupavam menos com o estilo da prosa e mais com as questões ideológicas do tempo, como a inserção dos vícios e desigualdades sociais portuguesas nas narrativas produzidas. O grupo – composto por nomes como Antero de Quental, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão e Vieira de Castro – responderia à provocação de Castilho duramente, nas palavras do mais combativo deles, Antero. O poeta, que ironicamente já se referira à estética romântica como “a escola do elogio mútuo”, diz ainda sobre esses autores que:

“(…) preferem imitar a inventar (…). Repetem o que está dito há mil anos, e fazem-nos duvidar se o espírito humano será uma estéril e constante banalidade.” Produzem, assim, uma obra “(…) para agradar ao ouvido, mas estéril para o espírito”. Sobre Castilho, continua: “Os versos de V. Ex.ª não têm ideal (…).  V. Ex.ª diz tudo quanto se pode dizer sem ideias (…). Mas, Exº Sr., será possível viver sem ideal? (…) Fora de Lisboa, isto é, no resto do mundo (…) nunca puderam passar sem essas magníficas inutilidades.”. Sempre ácido, termina o texto satirizando a idade do poeta, desejando-lhe “menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão”, e arremata: “Nem admirador nem respeitador, Antero de Quental”.

O tom de irreverência e desafio é evidente. No entanto, Ramalho Ortigão, membro do grupo, acha excessivo o deboche à idade de Castilho, chegando a entrar em duelo com Antero por conta desse ponto. Camilo Castelo Branco, pouco depois, publica Verdades Irritadas e Irritantes, texto em que toma partido do colega romântico. No entanto, este já não suscita qualquer reação do grupo coimbrão. Para sermos honestos, nem era preciso: a violência dos ataques e as bases para o questionamento dos atrasos portugueses, em termos artísticos e sociais, haviam sido lançadas e eram claramente um caminho sem volta. A Questão Coimbrã é considerada o marco inicial do Realismo em Portugal – e é justamente por isso que a ausência de Eça no debate chama a atenção. Hipóteses foram levantadas a esse respeito e talvez a mais plausível seja, de fato, a do distanciamento por respeito ao pai, com quem teve uma relação conturbada ao longo da vida e que se aproximou do jovem estudante, particularmente, depois de perceber o pendor do filho para a literatura. Acresce-se que Teixeira de Queiroz fora também escritor romântico, embora de pouco destaque, e, como sabemos, mantinha alguma amizade com Camilo Castelo Branco. Como ficariam as coisas com o pai se Eça, em discussão pública, tomasse posição aberta contra Camilo?

Tal tese é reforçada por um interessante documento. Trata-se de uma carta escrita por Eça a Camilo, vinda a público somente depois da morte dos dois autores. Eça elabora essa peça depois de ter provocado Camilo, indiretamente, no prefácio do livro Azulejos, do conde de Arnoso:

Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de linho puro, que tão indignamente nos arguiram de chafurdarmos num lameiro, vêm agora pé ante pé lambuzar-se com nossa lama! Depois, erguendo bem alto as capas de seus livros, onde escreveram em grossas letras este letreiro – romance realista, – parecem dizerem ao Público, com um sorriso triste na face mascarada: – ‘ Olhem também para nós, leiam-nos também a nós … Acreditem que também somos muitíssimo grosseiros, e que também somos muitíssimo sujos.

Camilo prontamente se identifica com o cutucão, já que livros seus como o Eusébio Macário e A Corja saem com um caráter de experimentação em terreno realista, embora o próprio autor tenha ficado incomodado com seus resultados finais. Ao lançar esses queixumes, também sempre comedidos no tom ao filho do juiz que o libertara, o escritor incomoda Eça o suficiente para que este escreva a sua famosa carta, em parte irônica, em parte laudatória, jamais enviada ao autor. Nela, afirma que os ataques de Camilo contra ele são injustos, apesar de, ao mesmo tempo, deixar aqui e ali uma referência maldosa ao seu estilo empolado e a sua idade avançada:

Mas quê! V. Ex.a., que estava brincando funebremente, a fazer no soalho, com tochas de fósforos, uma procissãozinha de moribundos, ergue-se de repente, corre para o público, mesmo sem tirar o babeiro, e acusa-me, entre lágrimas de furor, de estar sempre a implicar consigo! Que havia eu de fazer, eu inocente e justo? Corro também para o público, mesmo de jaquetão de trabalho, e brado profusamente com as mãos sobre o peito: “Nunca! É falso! Jamais impliquei com ele, e não lhe quero senão bem!”

O fato de refrear-se no envio seria, novamente, cautela devido à complicada situação familiar? É bastante possível que sim. A atitude sugere um enorme tato público quanto às suas relações com Camilo, cuidados nem sempre estendidos a outras figuras ilustres do período –  como Pinheiro Chagas, com quem trocara uma série de farpas em ocasiões diversas. Viveram, ambos os autores, numa espécie de “guerra fria”, unidos pela ligação comum com o pai de Eça e separados pelo inevitável abismo ideológico entre as propostas da literatura romântica, já em decadência na segunda metade do século, e as propostas do grupo realista, combativas, críticas e com olhos no futuro de Portugal. Dois nomes vigorosos no cenário português do período, sem dúvida, que merecem, cada um dentro da sua estética e do seu talento individual, a mais alta consideração do leitor.

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Bibliografia:

MATOS, A. Campos. Eça de Queiroz: Uma Biografia. Cotia: Ateliê Editorial; Campinas: Editora da Unicamp, 2014.