Alice Ruiz e Luci Collin: poesia e música, literatura de autoria feminina e política

Em uma mesa do Litercultura, as escritoras brasileiras Alice Ruiz e Luci Collin discutiram sobre a aproximação entre poesia e música, literatura de autoria feminina, feminismo, crise política e literatura paranaense

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Quase fechando a programação do Litercultura, no dia 28.08, as escritoras Alice Ruiz e Luci Collin, ambas paranaenses, deram um show de sabedoria, no que diz respeito à literatura e às questões culturais de modo geral e de consciência política. Várias vezes, inclusive, arrancaram aplausos de todos que estavam no Palácio Garibaldi atentos a tudo que elas falavam. Mas falemos um pouco de ambas escritoras antes de pontuar as discussões pertinentes da mesa.

Alice Ruiz é escritora, tradutora e uma das maiores haicaístas do país. Publicou seu primeiro livro aos 34 anos de idade e foi casada com o também poeta Paulo Leminski. Ela publicou inúmeros livros de poesia, sendo um deles, Dois em Um (2008), vencedor do prêmio Jabuti. Luci Collin, além de ser escritora, é tradutora, professora universitária e tem formação em música.  Além de ter muitos livros publicados, participou de antologias nacionais e internacionais, recebeu prêmios de concursos de literatura no Brasil e nos Estados Unidos. Também publica artigos e textos em revistas e jornais de vários estados do país.

A mesa com as duas começou com declamações. Alice Ruiz, com uma memória fantástica, declamou sem olhar em papel algum. Luci, por sua vez, trouxe um conto, escrito em vários pequenos bilhetes feitos em casa, o que não foi nem um pouco menos sensacional.

Ambas as autoras têm um ponto bastante em comum, que é a música. Alice Ruiz acredita que a letra de música e a poesia precisam, necessariamente, conversarem uma com a outra: unidas, elas fazem “A transa da linguagem”.  Para a poeta, o poema é para ser cantado, assim como era logo que surgiu, pois ele pede rima, métrica, às vezes, rigorosa. Luci Collin defende que o poema é sonoro e que merece sempre ser lido em voz alta, não devemos apenas ler em silêncio em nossas poltronas. O poema tem níveis de sonoridade, perpassados por elementos formais e estéticos, mas também semânticos, que muitas vezes são percebidos somente em um leitura em voz alta. As escritoras concordam que o poema não pode ser silencioso, devemos liberá-lo, e que o poema não é só literatura, uma vez que ele pode interagir com outras artes.

Alice contou sobre como se deu seu contato com a leitura e, consequentemente, com a escrita. Em sua casa só havia a Bíblia, que ela julgava chata e machista, cruel e muito imaginativa. Então, ela fugia das aulas para ir à biblioteca do Colégio Estadual do Paraná, onde lia de tudo, sem muitos critérios de escolha. Ao ler Mário Quintana despertou para a poesia e entendeu que seus rabiscos sobre o cotidiano poderiam também ser poesia.

A haicaísta declarou que não sabe como seria sua vida se não escrevesse; ela acredita que todo ser humano tem a necessidade básica de autoexpressão, assim como existe a necessidade de comer, beber, dormir, receber amigos, cozinhar e dar uma volta. Declarou que escrever é sua paixão maior, depois riu e disse “depois dos filhos e netos”, pois vai saber se eles não estavam na plateia.

Luci fez um percurso bem diferente. Sempre viveu em meio as artes, mas por muito tempo só quis se dedicar a música. Depois de um tempo decidiu estudar Enfermagem, pois queria ser “mais útil”, mas viu que isso não tinha nada a ver com ela.  Nasceu no período de ditatura militar no Brasil, mas sempre teve uma fenda para respirar  produção cultural em sua casa, pois havia um tio que estava escondido em sua casa (era perseguido pelos militares) e ele era amigo de intelectuais, como Paulo Leminski. Esse tio fez com que a escritora conhecesse várias pessoas do cenário cultural da época, quando não pessoalmente, era por meio de seus textos. Apaixonou-se pela literatura e com ela está de mãos dadas até hoje.

Sobre escrever, Collin disse que escreve porque é vital, sobretudo nesse momento político brasileiro. Acredita que nesse momento é importante produzir um artefato de resistência, que é a literatura. A produção literária pode funcionar como linha de frente que apresenta a possibilidade de resistência e, também, de sensibilidade.

As duas escritoras concordam a crise é que cria a resistência. E que produzir arte, produzir literatura, pode ser um meio de dar um alento. A literatura pode nos fazer pensar num modo de suportar o peso do mundo, pois “a crise cria”, falaram sobre este assunto bastante emocionadas.  Evidentemente, durante esta discussão, não faltaram gritos de “Fora, Temer” ecoando por todo Palácio Garibaldi, o que deixou as escritoras mais emocionadas ainda.

Em relação à literatura de autoria feminina, tanto Collin quanto Ruiz disseram que as mulheres que escrevem, em meio às sociedades patriarcais e machistas, são verdadeiras heroínas, são a resistência. A história fez de tudo para apagar as mulheres na literatura, sobretudo por meio de pseudônimos masculinos. A mulher na literatura efetivamente é algo recente, pois a maioria das mulheres não ia à escola em tempos passados, portanto, a presença da mulher na literatura é uma luta histórica e social. Esse é um motivo, de acordo com as escritoras, de o feminismo ser tão importante para a sociedade, no entanto e infelizmente, ele ainda é muito mal compreendido, e isso é uma questão cultural e uma questão de ignorância, o que tende a aumentar em função do retrocesso que veio com o golpe político recente.

Além dos assuntos expostos acima, as escritoras discutiram sobre a literatura paranaense, fazendo um panorama histórico, citando grandes nomes, como Dalton Trevisan, e também nomes que deveriam ser conhecidos e que são fundamentais para conhecer melhor a literatura do Paraná.

 

Estela Santos Autor

Colaboradora do Homo Literatus, professora, mestra em Letras - Estudos Literários e mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela