10 Livros escritos por mulheres e indicados pelos colaboradores do Homo Literatus

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Na busca por livros de autoria feminina? Os colaboradores do Homo Literatus indicam alguns.

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Chamar março de mês das mulheres é apenas uma entre muitas razões para voltarmos os olhos para livros de escritoras. Você procura um livro de uma autora, mas não sabe por onde começar? A equipe do Homo Literatus separou algumas indicações.

 

Clara Madrigano |  A mulher do viajante no tempo, de Audrey Niffenegger

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A mulher do viajante no tempo, de Audrey Niffenegger, é minha indicação. Niffenegger, uma artista, elabora em seu primeiro romance uma história única e deliciosamente fantástica, sobre a relação de uma jovem, Clare, e de Henry, seu marido, portador de uma síndrome rara que o faz viajar no tempo. Mistura quase perfeita de fantasia, ficção científica leve e realismo; você quer acompanhar as personagens; se preocupa com elas e quer experimentar a vida caótica e trágica e também cheia de pequenas alegrias que levam.

 

Vilto Reis | Carvão animal, de Ana Paula Maia

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Pensei em vários livros de escritoras que poderia indicar, mas uma frase deste romance ainda reverbera na minha cabeça após alguns meses de leitura: “No fim tudo o que resta são os dentes”. Carvão Animal é um livro que não quer impressionar o leitor por sua linguagem, por sua invencionice literária. É sim, uma rara peça ficcional que não se rendeu à moda da metaficção. Retrata a história de dois irmãos unidos por sua relação com o fogo. Um deles é bombeiro e tem analgesia congênita, não sente dor. O outro é responsável pela queima de corpos num crematório. Em um tom por vezes apocalítico, como os romances de Cormac McCarthy, este livro de Ana Paula Maia deixa você desconfortável, ainda que seja por demais humano.

 

Walter Bach Tudo o que tenho levo comigo, de Herta Müller

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Peso. É a primeira palavra que me visita após a leitura deste romance de Herta Müller. A desolação do personagem, mesmo anos após os eventos do enredo deste livro terem acabado, é descrita por meio de metáforas e uma linguagem tão dura quanto lírica. As palavras caem sobre nós, diz o narrador, cuja situação em meio a um campo de trabalho forçado para auxiliar na reconstrução de um país devastado nos idos de 1950 é de alguém perdido, se agarrando em frágeis memórias de uma frase dita por sua vó, antes da partida: ‘eu sei que você vai voltar’. Como se a volta fosse garantia de uma vida, onde os vínculos pessoais tornam-se ainda mais frágeis após um sacrifício pela pátria. Tudo o que tenho levo comigo está longe de uma reconstrução fiel dos fatos, pois nos conta uma visão particular de um todo, e a combinação dessa vista individual com o peso vocabular da linguagem foi minha introdução definitiva ao universo ficcional de Herta Müller. É difícil sair impune de uma leitura dela.

 

Maria Luiza | A asa esquerda do anjo, de Lya Luft

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Lya Luft é minha escritora preferida e por isso mesmo é tão difícil falar sobre ela. Fazer jus à sua literatura intimista e subjetiva é como falar sobre as características de uma cor que cada um vê de um jeito. A asa esquerda do anjo foi a minha porta de entrada na sua escrita, e até hoje guardo comigo as imagens que Lya usa para evocar sentimentos escondidos nas profundezas da alma: vermes, barrigas estouradas, melancólicos anjos de pedra. A trama é simples: acompanhamos Gisela, brasileira descendente de alemães, desde a infância até a idade adulta, enfrentando as diversas pressões de ser uma criatura no limbo entre duas nacionalidades. Como leitores, somos atirados para trás dos olhos de Gisela, visualizando o mundo através das suas pupilas de criança desencaixada e sofrendo sob o peso de uma matriarca que representa a frieza e as tradições de uma Alemanha esfacelada no meio do século XX. Nada permanece simples com Luft, no entanto: é nos nós da alma que a autora busca as feridas que dão significado à vida, à morte e ao amor.

 

Nicole Ayres | Doidas e Santas, de Martha Medeiros

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Com todo o respeito aos clássicos, de suma importância para a formação do leitor, eu quis fugir do clichê de indicar Clarice Lispector ou Virginia Woolf, figuras mais conhecidas, para indicar outra autora, também bastante conhecida e popular, porém contemporânea. Martha Medeiros, seja em seus poemas ou, no caso, em suas crônicas, consegue, de maneira leve, discutir assuntos que afligem o ser humano da nossa época. Ela discorre sobre temas clichês, como o amor, a felicidade, a amizade, o prazer, etc., sem ser clichê, promovendo pequenas reflexões a respeito do dia a dia. O livro é agradável e faz pensar. Nada melhor.

 

Marcela Güther | O Coração disparado, de Adélia Prado

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“Quero estar cheia de dor mas não quero a tristeza. Por algum motivo fui parida incólume, entre escorpiões e chuva.” E assim nasceu o fim de “Códigos”, poema que integra a coletânea O Coração disparado (1978), de Adélia Prado, livro ganhador do Prêmio Jabuti. Na obra, está Deus, sempre vigiante dos pecados da poetisa mineira, pecados que se evidenciam em meio ao afloramento do desejo sexual, à pobreza interiorana (“Como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril”) e à difícil aceitação do envelhecer e da morte. A ludicidade e pequenos encantos revelados nos versos de Adélia intrigam; a autora cerca o leitor dentro de seu mundo – tão genuíno, descrito com o sentimento de pesar provocado pela monotonia dos dias. A salvação divina parece não encontrar o interior do Brasil, muito menos a sua realidade sufocante e inescapável. Mas há conforto e esperança na religião, constantemente questionada ao longo do livro. Adélia te faz querer – assim como ela mesma desejava e, de certa forma, já conseguiu, mesmo em vida – ser imortal.

 

Estela Santos | O calor das coisas, de Nélida Piñon

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O livro O calor das coisas (1980) consagrou Nélida Piñon como uma das melhores vozes femininas da literatura brasileira, e isso não veio de graça. Trata-se de um livro de 13 contos curtos, estes são recheados de lirismo, erotismo, racionalidade e crítica. Duas coisas permeiam todo o livro e parecem ser preocupações da escritora: a manipulação política da linguagem e a importância que têm as palavras, suas capacidades. Nos contos dessa obra, Nélida demonstra, por meio de seus personagens, a preocupação que tem com a complexidade do ser humano, este abismo insondável. E não devemos deixar de mencionar o humor fino da autora que permeia toda a obra.

 

Luigi Ricciardi | Sinfonia em branco, de Adriana Lisboa

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Um livro soberbo, em toda a ressignificação adjetiva. Adriana Lisboa é uma das vozes mais interessantes da literatura contemporânea. Domina todos os fios de ouro de sua narrativa, e tece, tal Ariadne, uma composição arrebatadora. As idas e vindas no tempo, a retomada de fatos já apresentados, mas vistos por uma câmera diferente, e que são reapresentados por novas facetas, focos e digressões, fazem o romance lembrar a maestria narrativa de Gabriel García Márquez, evidentemente sem o universo de realismo mágico. Clarice, Maria Inês e todos os personagens, em sua solidão muda, são pintados por meio de uma linguagem metafórica poderosa e de uma tristeza bela. Em 2007 eu havia comprado esse livro em um dos sebos da cidade. Um ano depois, tive que me desfazer de alguns livros, e ele, aparentemente desinteressante para mim na época, foi descartado e vendido ao sebo. Anos depois li uma crítica boa sobre o livro e me arrependi de tê-lo vendido. Há três meses, passeando por entre as prateleiras do mesmo sebo, deparei-me com o mesmo exemplar que eu possuíra. Esperava por mim. Há algumas histórias que são feitas para nós, por mais que fujamos delas.

 

Ygor SperanzaA Verdadeira História do Alfabeto, de Noemi Jaffe

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As letras, as unidades básicas das palavras, seus átomos, suas células, seus tijolos. As letras se combinam para formar palavras, que, em troca, passam a impregnar suas iniciais com seus significados. Podemos pensar nas letras como ao mesmo tempo semente e substrato das palavras que criam. E se em cada letra houvesse também uma história secreta? Uma verdade que se esconde na anatomia de seu símbolo? E se Epicuro tivesse inventado o “A” para poder escrever o amor? E se na letra “D” morasse o segredo dos dados e dos deuses? E se Borges tivesse inventado o “U” para que os lobos das florestas saxônicas pudessem lamentar-se? Se o “X” tivesse saltado de um tabuleiro de xadrez perante Lujin? E se Bach? E se Maria Ursula d’Abreu e Lencastro? E se Adão, no paraíso? E se? Se assim, a paulista Noemi Jaffe teria realmente escrito A verdadeira história do alfabeto, livro indicado ao Prêmio Jabuti e vencedor do 2o. Prêmio Brasília de Literatura.

 

André CaniatoHibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adiche

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Conheci Chimamanda em 2013 quando utilizei sua palestra maravilhosa para a TED em um trabalho da faculdade. Procurei Hibisco roxo ainda com suas palavras na cabeça, sem procurar mais sobre a história, sabendo pouco mais do que o que ela fala na palestra. O livro, que foi lançado em 2003 na Nigéria como Purple Hibiscus, mas só foi chegar ao Brasil em 2011, conta a história de Kambili, filha de um pai autoritário e abusivo que, por seu catolicismo cego, entre outras coisas, está, aos poucos, destruindo sua família. Kambili é nossa narradora e conta da temporada que passa com sua tia, conta de seu avô ainda fiel às crenças de seu povo, conta de uma vida diferente que acaba mudando seu jeito de ver o mundo. Hibisco roxo é uma história maravilhosa e multifacetada na qual, em sua primeira obra, Adichie já demonstra habilidade para narrar a estrutura de uma família rígida, mas amorosa, os problemas sociais da Nigéria pós-colonial e as dúvidas de uma adolescente de quinze anos de idade.

 

Jefferson Figueiredo | Henry & June, de Anaïs Nin

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É difícil de acreditar que Henry & June tenha sido escrito originalmente nos famosos diários de Anaïs Nin. Tendo a estrutura de um romance, ele segue o relacionamento amoroso da autora com Henry Miller e sua esposa, June Miller entre 1931 e 1932 em Paris. Além de ser aclamado como seu melhor livro – mesmo tendo sido publicado postumamente –, ele traz à tona uma questão importante: o amor e os limites que ele pode viver (ou transgredir). Anaïs amava seu marido, o banqueiro Hugo Guiler, mas ficou fascinada com a escrita e a personalidade de Henry Miller, envolvendo-se sexualmente com este.  Como se isso não bastasse, a beleza de June, esposa de Miller, a levou a entrar nesse triangulo amoroso que acabou por levá-la a psicólogos. Os questionamentos de uma mulher forte e independente sexualmente muito antes disso ser imaginado são detalhados pela perspectiva de uma das mais interessantes mulheres do século passado.

 

Márwio Câmara | A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst

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A Obscena Senhora D. nasceu num momento de total rebeldia da escritora que, cansada do status de hermética, resolveu lançar-se como pornógrafa. Rebeldia, por sua vez, fracassada, diga-se; já que a pornógrafa Hilst apenas reconfirma neste trabalho a efervescência inteligível e desconcertante de sua escrita. Uma cientista da linguagem buscando, através das palavras, o sentido da existência – e a busca por Deus –; fazendo de sua poética uma intensa conexão ao terreno indizível da alma humana. Hilst dá forma literária no nosso caos interior, através de uma tessitura verbal de hibridação mística e filosófica – refinando ao solo de sua narrativa uma atmosfera de densidade mágica e exuberante. Sem dúvida, Hilda Hilst, ao lado de Clarice Lispector, pertence ao time dos grandes nomes femininos da literatura brasileira.